Mostra de São Paulo - Dias 10, 11 e 12

by Pablo Villaça 4. novembro 2011 00:17

(Abraço ao leitor Leandro, que demonstrou tanta gentileza ao me abordar hoje no Arteplex Frei Caneca.)

Encerro aqui o mês mais atribulado de minha carreira como crítico. Ao longo dos últimos 25 dias, cobri os dois mais importantes eventos de Cinema do país praticamente sem intervalos, vendo nada menos do que 105 filmes e escrevendo sobre todos eles. Foram quase 60 mil palavras escritas (ou, em termos jornalísticos, 356 mil toques), num total de 106 páginas do Word (fonte Times New Roman, tamanho 11, espaçamento simples). Em outras palavras, um pequeno livro.

Estou exausto, mas também com a sensação de ter feito o possível para levar a vocês o máximo de cada evento sem sacrificar muito a qualidade dos textos. Espero que tenham curtido.

Vamos, então, aos doze últimos longas vistos na Mostra:

41) This Is My Picture When I Was Dead (Idem, Jordânia, 2010). Dirigido por Mahmoud al Massad. Com: Bashir Mammon Mraish.

Em 1983, o ativista da OLP Mamoun Mraish sofreu um atentado organizado pelo Mossad israelense que lhe tirou a vida e quase matou também seu filho de quatro anos que se encontrava em seu colo no momento dos disparos. Reavivado após um breve coma, Bashir Mraish, agora com cerca de 30 anos, surge neste documentário buscando descobrir mais sobre o pai e seu envolvimento na causa palestina.

Com uma introdução fabulosa concebida pelo diretor Mahmoud al Massad, que traz um bombardeio em Gaza durante o Natal de 2008 acompanhada por músicas natalinas que levam o público a se questionar se não estaria de fato testemunhando apenas fogos de artifício, This is My Picture When I was Dead acompanha Bashir (um Humberto Martins árabe) enquanto este visita antigos companheiros de seu pai e mantém conversas com a mãe e com amigos – discussões que Massad intercala com imagens de arquivo e breves reencenações (entre as quais, a mais eficiente é mesmo a do atentado que matou o pai do protagonista).

Infelizmente, o filme logo perde o foco ao buscar retratar também o cotidiano de Bashir – e se seu trabalho como cartunista político é inteligente e pertinente, o mesmo não pode ser dito sobre suas conversas acerca de casamento, namoradas e problemas com o carro. Da mesma maneira, por que incluir sua visita ao médico e a descoberta de um tumor em suas costas se isto jamais volta a ser abordado pelo filme? Sim, o diretor pretende fazer um recorte da vida do sujeito, com suas trivialidades e questões mais relevantes, mas um possível câncer do protagonista é algo sério demais para ser tratado com tamanha casualidade.

Fotografado com eficiência e conferindo um tom quase ficcional à narrativa em função do cuidado com os quadros, o filme nos oferece uma reflexão sensível sobre uma vida que quase foi cortada em seu início, mas não o faz de uma maneira particularmente eficiente, o que é uma pena. (2 estrelas em 5)

 

42) A Terra Ultrajada (Terre outragée, França/Ucrânia, 2011). Dirigido por Michale Boganim. Com: Olga Kurylenko, Andrzej Chyra, Nikita Emshanov, Ilya Iosifov, Vyacheslav Slanko, Sergei Strelnikov.

Feliz no dia de seu casamento, a bela Anya (Kurylenko) não percebe os peixes mortos que flutuam no lago ao lado de sua pequena festa ou os pássaros mortos nos campos. Aliás, nem mesmo as gotas negras da chuva parecem alertá-la para o fato de que algo está terrivelmente errado, já que ela consegue apenas se preocupar com o marido, arrancado da recepção para combater um incêndio na floresta que cerca Pripyat, sua cidade. Era 26 de abril de 1986, um sábado, e o incêndio ocorria de fato na usina nuclear de Chernobyl.

Dirigido por Michale Boganim a partir de roteiro escrito por ele em parceria com Anne Weil, A Terra Ultrajada investe sua metade inicial na recriação do dia do acidente – e é aí que a experiência do cineasta como documentarista é bem utilizada ao conferir realismo ao caos crescente que tomaria conta da cidade. Ilustrando a chegada da primeira tropa de contenção com suas roupas de proteção que assustariam a população desavisada, o longa também usa esta sequência para nos apresentar aos personagens principais: além de Anya (a protagonista indiscutível), um cientista que se torna o primeiro a perceber as dimensões do desastre e um fazendeiro que se recusa a deixar sua propriedade. Com isso, esta primeira parte do filme surge angustiante com o bipe constante dos contadores Geiger e com a constatação crescente de que a maior parte daquelas pessoas já está morta sem se dar conta do fato.

Com um olho cuidados para os detalhes (o bilhete deixado no portão de casa por uma garotinha pedindo que sua cachorrinha não seja morta é devastador), Boganim transporta o espectador para Pripyat durante aquela evacuação confusa e desesperada, ao passo que o impecável design de produção faz um belíssimo trabalho de recriação da cidade – o que se revelará particularmente importante quando passarmos a ver a verdadeira Pripyat na segunda metade da projeção.

Que também é a mais frágil do projeto. Concentrando-se nas consequências psicológicas do acidente sobre Anya e Valery, filho do cientista que buscara salvar a população, o filme perde o foco justamente neste momento, sendo prejudicado também pela instabilidade da protagonista, cujas ações, motivadas pelo trauma passado, pela relação conflituosa com o próprio lar e com os amantes, a transformam numa personagem difícil e desagradável. Da mesma maneira, o jovem Valery soa mais irritante do que tocante, o que é um problema – e, para piorar, as breves cenas que trazem seu pai ainda vivo e enlouquecido jamais contribuem com a narrativa, surgindo quase como uma alucinação do garoto.

Ainda assim, a força resultante das locações reais, que revelam Pripyat como uma autêntica cidade fantasma, sustenta a segunda parte de A Terra Ultrajada, mantendo o espectador preso à história em função da geografia, não dos personagens. (2 estrelas em 5)

 

43) Habemus Papam (Idem, Itália, 2011). Dirigido por Nanni Moretti. Com: Michel Piccoli, Nanni Moretti, Jerzy Stuhr, Renato Scarpa, Camillo Milli, Margherita Buy.

A ideia que move Habemus Papam é excepcional: depois de eleito pelo conclave de cardeais após a morte do antigo Papa, o novo sumo-pontífice apavora-se diante da possibilidade de assumir o comando da Igreja e se recusa a apresentar-se aos fiéis. Presos no Vaticano enquanto o novo Papa não for identificado ao público, os cardeais entregam-se a jogos infantis enquanto discutem vários assuntos com um psiquiatra ateu chamado de urgência para tentar curar a fobia de seu líder. Posso imaginar inúmeras situações potencialmente hilárias que esta premissa originaria – e, de fato, o diretor Nanni Moretti pensou na maioria delas, falhando apenas em desenvolvê-las com cuidado, mostrando-se mais interessado em atirar para todos os lados do que em se concentrar para garantir que as gags funcionariam bem.

Já humanizando os poderosos cardeais desde o princípio, quando ficam momentaneamente no escuro e isolados do mundo depois que uma falha de luz ocorre durante o conclave, Moretti é hábil ao estabelecer o tom levemente satírico de sua obra ao trazer um religioso tentando espiar o voto do colega, estabelecendo também a falta de vaidade daqueles homens e o peso representado pelo cargo ao mostrá-los orando secretamente para que não sejam os escolhidos. No entanto, o filme parece mesmo encontrar seu caminho quando o psiquiatra vivido pelo próprio diretor entra em cena e tenta, sem sucesso, manter uma sessão com o novo Papa enquanto é observado por todos os cardeais e recebe a orientação de não discutir nada relacionado a sonhos, desejos, sexo ou mesmo os sonhos do paciente.

Assim, se por alguns momentos sugere estar prestes a se tornar uma espécie de O Papa no Divã, o longa rapidamente toma outro caminho, abandonando aquela linha narrativa, mas mantendo o personagem – e, embora o médico jamais volte a se encontrar com o Papa (o que é uma pena), é mantido na trama ao ser impedido de deixar o Vaticano, passando a interagir com os cardeais e rendendo alguns bons momentos (mas não o suficiente para justificar sua inclusão no filme, o que é indicativo do descuido com que é explorado pelo roteiro, que parece inclinado a abandonar situações no meio exatamente como o campeonato de vôlei organizado pelo psiquiatra e abruptamente encerrado antes das semi-finais).

O mais frustrante é perceber como Habemus Papam parece reconhecer tudo o que poderia fazer com aquela premissa, já que, vez por outra, brinca em explorar ideias como retratar os cardeais enlouquecendo na companhia uns dos outros; ao trazê-los discutindo a Fé e a Bíblia com o psiquiatra ateu; ou ao iniciar uma discussão entre este e um dos principais cardeais sobre Darwinismo e Criacionismo – mas nenhuma destes esforços segue adiante. Por outro lado, Moretti é bem-sucedido em sua tentativa de retratar aqueles homens como indivíduos dignos da posição que ostentam, surgindo até mesmo infantilizados por sua fé incondicional e por sua ingenuidade.

Neste sentido, vale dizer, é que o veterano Michel Piccoli se apresenta como o destaque indiscutível do longa: encarnando o novo Papa com um equilíbrio perfeito de insegurança, pânico, mas profunda gentileza e doçura, o ator constrói um personagem vulnerável, fragilizado, mas cujas atitudes, que poderiam ser facilmente interpretadas como covardes, refletem apenas sua preocupação incondicional com seus fiéis e com a própria Igreja. Trata-se provavelmente de uma das melhores performances do ano e da própria carreira de Piccoli – e considerando a galeria de personagens memoráveis vividos pelo sujeito, isto não é pouca coisa.

Mas fazendo jus ao seu potencial cômico ou não, Habemus Papam é um filme honesto e corajoso ao seu próprio modo – algo que se comprova em seu desfecho forte, humano e que, mesmo talvez soando insatisfatório ao espectador, é perfeito do ponto de vista dramático. Com isso, mesmo lamentando o desperdício de uma boa ideia, torna-se impossível desgostar do resultado por ela originado. (3 estrelas em 5)

 

44) Tudo pelo Poder (The Ides of March, EUA, 2011). Dirigido por George Clooney. Com: Ryan Gosling, Paul Giamatti, Philip Seymour Hoffman, George Clooney, Evan Rachel Wood, Marisa Tomei, Jeffrey Wright, Max Minghella, Jennifer Ehle, Gregory Itzin, Michael Mantell.

Quarto trabalho de George Clooney na direção, Tudo pelo Poder representa um retorno do cineasta à boa forma depois do fraco O Amor Não Tem Regras, comprovando que ele se sai melhor quando está lidando com indivíduos inteligentes em situações complexas. Acompanhando a campanha de um pré-candidato democrata à presidência dos Estados Unidos, o filme já antecipa as complicações que perturbarão seus personagens em seu título original, que, com sua referência ao “Júlio César” de Shakespeare, nos sugere cuidado com os “idos de março” – mês no qual a história se passa.

Roteirizado por Clooney, seu parceiro habitual Grant Heslov e por Beau Willimon a partir da peça escrita por este último, o longa gira em torno das primárias democratas para decidir quem será o candidato do partido ao cargo mais importante do país – uma corrida dominada pelo carismático governador Mike Morris (Clooney), cuja campanha é comandada pelo experiente Paul Zara (Hoffman), chefe do assessor de imprensa Stephen Meyers (Gosling). Enfrentando um candidato mais conservador que conta com o inteligente Tom Duffy (Giamatti) como estrategista, a equipe de Morris traz ainda a estagiária Molly (Wood), que, ao se envolver com Meyers, permite que este descubra um segredo com potencial para provocar uma reviravolta completa na disputa.

Praticamente ignorando os republicanos, que só atuam perifericamente no sentido de tentar garantir a vitória do oponente de Mike por temerem a força do governador, Tudo pelo Poder é fascinante justamente por abordar uma impiedosa batalha entre integrantes do mesmo partido que, ganhe quem ganhar, obrigatoriamente se tornarão aliados futuros. Assim, quando observamos as conhecidas estratégias dos oponentes, constatamos que a natureza impiedosa das campanhas não é fruto necessariamente de divergências políticas (embora estas também existam), mas resultado direto da própria lógica eleitoreira – uma lógica que dita que informações negativas sobre o adversário devem sempre ser vazadas para a imprensa, já que invariavelmente resultarão em vantagem: se forem verídicas, prejudicarão o candidato; se forem falsas, ele perderá um dia sendo obrigado a desmenti-las.

Inteligente ao escalar-se como Morris, já que traz uma aura de sofisticação e inteligência ao personagem, Clooney encarna aqui um candidato democrata claramente inspirado em Obama (o da campanha, não o eleito) – algo refletido até mesmo em seus cartazes eleitorais: liberal e sem medo de assumir-se como tal, ele defende tópicos polêmicos com eloquência e maturidade, respeitando a divergência sem, contudo, aceitar posições absurdas como válidas apenas para agradar os eleitores. Resistente a ceder em pontos que lhe são caros apenas para aumentar suas chances na eleição, Morris lamenta já ter sido obrigado a se entregar a propagandas negativas contra o adversário e a se reunir com financiadores, ilustrando a natureza corruptora do próprio modelo eleitoral.

Remetendo em diversos momentos ao igualmente intrigante Tempestade Sobre Washington, dirigido por Otto Preminger em 1962, Tudo pelo Poder se beneficia da inteligência de seus personagens, que muitas vezes parecem estar numa partida de xadrez ou mesmo de pôquer, com direito a blefes que poderiam garantir uma vitória ou a ruína dos jogadores. Assim, quando Stephen toma a impensada atitude de aceitar um convite para encontrar-se com o rival Tom Duffy, o estrategista vivido por Philip Seymour Hoffman disseca suas motivações para tê-lo feito com precisão absoluta, demonstrando compreendê-lo talvez até melhor do que o próprio Stephen – o que, no entanto, não significa perdoá-lo, resultando naquela que talvez seja a melhor cena do filme.

Destaque em um longa com elenco fabuloso, Philip Seymour Hoffman encarna Paul com um misto de lealdade e paranoia que, associadas à inteligência do sujeito, formam uma combinação perigosa, ao passo que Paul Giamatti, como seu grande rival, leva o espectador a respeitar Tom mesmo torcendo contra seu sucesso. E se Evan Rachel Wood confere vulnerabilidade à bela Molly, é um prazer ver Gregory Itzin roubando a cena ao discursar em um velório (e o fato de o ator ter interpretado um presidente corrompido na série 24 Horas acaba adicionado um subtexto curioso à narrativa). No entanto, o centro de Tudo pelo Poder é mesmo o assessor interpretado por Ryan Gosling, cujo idealismo inicial é o primeiro passo do grande arco dramático do roteiro à medida que percebemos como ele rapidamente cederá aos piores impulsos para inicialmente defender seu candidato e, em seguida, a si mesmo.

Com uma fotografia eficiente de Phedon Papamichael, que acerta tanto no simbólico (como no plano que traz Stephen articulando em contraluz, pequeno, por trás da gigantesca bandeira norte-americana) quanto na atmosfera da narrativa (como o encontro mergulhado em sombras de Stephen e Morris), Tudo pelo Poder ainda merece aplausos pela rima temática perfeita que amarra suas pontas, da encenação para uma plateia do plano inicial à entrevista em rede nacional do final.

Mesmo não revelando nada de novo sobre o processo eleitoral norte-americano (ou brasileiro ou francês ou...), Tudo pelo Poder envolve e intriga do princípio ao fim. (5 estrelas em 5)

 

45) Caverna dos Sonhos Esquecidos (Cave of Forgotten Dreams, EUA/Canadá/França/Inglaterra/Alemanha, 2010). Dirigido por Werner Herzog.

De acordo com os criacionistas, que tentam conferir aura de ciência à crendice através da expressão “design inteligente”, o mundo tem apenas dez mil anos. Seria curioso, portanto, escutá-los justificando a existência de um monumento histórico tão magnífico quanto a caverna de Chauvet, que, descoberta em 1994 por Jean-Marie Chauvet, Éliette Brunel Deschamps e Crhistian Hillaire, traz as pinturas rupestres mais antigas já vistas pelo homem – algumas com mais de 30 mil anos.

Transformada em uma verdadeira cápsula do tempo depois que sua entrada foi selada por um deslizamento de terra há cerca de 20 mil anos, a caverna foi vetada à visitação pública pelo governo francês, que busca, assim, preservar a integridade do achado – e, neste sentido, a entrada permitida ao cineasta Werner Herzog e à sua equipe representa talvez a única possibilidade que teremos de contemplar algumas das primeiras manifestações artísticas criadas no escuro e com carvão por nossos antepassados, bem como outras obras concebidas apenas pela ação da natureza e do tempo, como os depósitos de cristais de calcita sobre crânios de animais.

Impressionante pela escala das pinturas, pelo fato de estas visivelmente contarem pequenas histórias e por procurarem retratar o movimento dos animais através de sugestões gráficas (como um número maior de pernas), a caverna de Chauvet é encarada por Herzog, sempre fascinado pela Natureza, como um espaço quase religioso – algo manifestado nos corais que remetem ao sacro na trilha sonora e ao silêncio devotado que ele inclui em certa passagem do filme. Da mesma maneira, o rico design de som procura cercar o público com o gotejar constante da água que permeia as paredes da caverna enquanto a câmera do cineasta enfoca verdadeiras-obras primas como a cortina translúcida de pedra que desce das paredes do lugar.

Aventureiro como de costume, Herzog se esforça para ilustrar as dificuldades da filmagem apesar de jamais deixar o preciosismo de lado, levando os cientistas e a equipe que o acompanham a posar para a câmera enquanto fazem pequenas coreografias quase ritualísticas com as cabeças. Além disso, o diretor oferece alguns de seus belos insights habituais como ao comparar o jogo de sombras das cavernas com o próprio Cinema (citando, inclusive, Fred Astaire em Ritmo Louco) ou ao comentar que algumas das pinturas foram sobrepostas por outras feitas cerca de 5 mil anos depois (“Nós estamos presos na História, mas eles não estavam”). Em contrapartida, há outros instantes em que o cineasta obviamente força nas filosofadas, tropeçando especialmente na pretensão ao se perguntar o que um grupo de crocodilos albinos pensaria ao ver aquelas pinturas.

Hábil ao retratar a emoção dos cientistas diante das próprias descobertas e da magnitude daquela construção natural, Hergoz volta a exibir sua notória sensibilidade ao investigar os sentimentos de seus entrevistados, sendo particularmente curioso perceber seu interesse acerca do passado de um arqueólogo que costumava trabalhar num circo (por outro lado, todo o segmento dedicado a um velho perfumista poderia ter sido descartado sem qualquer prejuízo à narrativa).

Optando por rodar o documentário em 3D por imaginar que desta forma as representações pictóricas poderiam ser melhor apreciadas pelo espectador, já que a superfície irregular da caverna desempenha papel importante na dinâmica das pinturas, Herzog acerta em sua conclusão sempre que o filme se concentra na geografia do lugar e nas gravuras, que, de fato, ganham vida através do 3D – e, em certos momentos, sentimos até o impulso de baixar a cabeça para não acertarmos alguma estalactite. Por outro lado, se há algo que não combina muito bem com o 3D é a câmera na mão e com excesso de movimentos – algo corriqueiro em Caverna dos Sonhos Esquecidos, já que as limitações de tempo, espaço e permissão impediriam a utilização de tripés, dollies, etc. Como se não bastasse, frequentemente observamos graves distorções na tridimensionalidade do filme, como no instante em que duas cientistas se colocam diante de uma parede com vários pontos vermelhos e o fundo parece se destacar sozinho ou no plano que traz a câmera num aeromodelo e sendo agarrada por um membro da equipe (quando, então, a sensação é a de que ficamos vesgos subitamente). Além disso, há vários instantes em que as figuras humanas surgem achatadas como recortes de papel diante da profundidade da caverna, criando um efeito feio e obviamente incorreto.

Ainda assim, como o 3D funciona nos momentos que interessam de fato (os planos que exibem apenas as pinturas e as formações geológicas) e como o documentário nos oferece entrada a um lugar mágico e inigualável, Caverna dos Sonhos Esquecidos é um filme que já merece aplausos desde sua gênese. E por falar em “gênese”, se os criacionistas usarem a desculpa habitual que já empregam para justificar a existência dos fósseis e disserem que os achados de Chauvet foram deixados por Deus na Terra com o objetivo de testar a fé dos homens, digo apenas que, se for este o caso, trata-se da pegadinha mais linda que a História já testemunhou. (3 estrelas em 5)

 

46) Vou Rifar Meu Coração (Idem, Brasil, 2011). Dirigido por Ana Rieper.

A grande virtude de Vou Rifar Meu Coração, documentário sobre a força da música brega especialmente no nordeste do país, reside na estupenda seleção dos personagens enfocados pela diretora Ana Rieper – e em vários momentos pude visualizar mentalmente a cineasta erguendo os punhos em sinal de vitória por trás da câmera ao ouvir declarações particularmente inspiradas e divertidas feitas por seus depoentes.

Intercalando depoimentos de fãs daquele gênero musical a outros feitos por alguns de seus principais expoentes (Wando, Odair José, Amado Batista, Agnaldo Timóteo, Nelson Ned e Lindomar Castilho – cujos nomes, talvez por identificação, acabam soando tão cafonas quanto suas músicas), o longa não busca identificar através de legendas a identidade dos entrevistados, o que, embora por vezes frustrante, é eficiente ao equiparar artistas e fãs, reduzindo todos ao mesmo patamar: o de defensores do brega. Neste aspecto, é curioso perceber como a paixão por aquelas músicas vem constantemente associada a lembranças afetivas – especialmente a casos de traição (um campo promissor que chega a inspirar o sucesso de um radialista que, criador de um programa chamado “A Hora e a Vez do Corno Apaixonado”, comemora: “Esse negócio de corno dá certo!”).

E é precisamente graças a estes relatos que Vou Rifar Meu Coração se torna tão memorável, já que não há como deixar de admirar (mesmo rindo) alguém capaz de dizer sem qualquer sombra de ironia algo como “Acredito que outra pessoa, além de mim e da esposa, ele não tem”. Da mesma maneira, a diretora Ana Rieper faz um verdadeiro achado ao incluir no filme o ex-prefeito Osmar e suas duas famílias – e é curioso perceber como mesmo se relacionando há 33 anos com a amante, com a qual tem filhos e netos, ele a trata como... amante, afirmando que a prioridade é a esposa (que, sim, sabe de tudo, já que o marido passa três noites por semana na casa da outra). E mesmo que seja comovente ver o sofrimento destas mulheres, é impossível não rir da habilidade de Osmar em convencê-las a batizar todos os filhos (e também os netos!) com variações de seu próprio nome, o que torna difícil até mesmo para a avó a tarefa de lembrar os nomes de todos os netos.

Por outro lado, é interessante observar como os cantores enfocados pelo documentário surgem pregando filosofias e soltando frases  bregas como as músicas que os tornaram famosos, o que é, no mínimo, um sinal de coerência – e, neste aspecto, Wando merece destaque não só por sua estranha dicção e pelo visual, mas também por soltar pérolas como “Imagina uma pessoa que nunca deu flores para outra pessoa”. E o que dizer do sujeito que ganha a vida como cover de Amado Batista, naquela que, depois de limpador de jaulas, deve ser a profissão mais triste do mundo?

Ainda assim, Vou Rifar Meu Coração tem um imenso mérito que é o de jamais fazer o que fiz no parágrafo anterior: juízo de valor sobre as canções que enfoca. Para Riepert, aquelas músicas são tão válidas quanto os sentimentos que despertam – e, brincadeiras à parte, devo dizer que concordo com a cineasta. Pois as manifestações daquelas dores e lembranças podem vir até embaladas numa roupagem cafona, mas jamais deixam de refletir sentimentos ser profundamente reais e, por isso mesmo, tocantes. (5 estrelas em 5).

 

47) A Educação (Die Ausbildung, Alemanha, 2011). Dirigido por Dirk Lütter. Com: Joseph Konrad Bundschuh, Anke Retzlaff, Anja Beatrice Kaul, Stefan Rudolf, Dagmar Sachse.

Vivido por Joseph Konrad Bundschuh (uma mistura de Michael Cera e do Sheldon de The Big Bang Theory), Jan é um jovem alemão que trabalha como atendente no call center de uma grande empresa. Prestes a concluir seu período de experiência e ansioso para conseguir um contrato permanente, ele se vê em meio a interesses conflituosos entre seu chefe, sua supervisora e sua mãe, que, representando o sindicato na companhia, tem alguma – mas não muita – estabilidade no emprego. A partir daí, o diretor e roteirista Dirk Lütter busca retratar o caráter opressivo e desumano da mentalidade corporativa, mas sem jamais conseguir dizer algo de particularmente original sobre o assunto.

Enfocando a tensão constante daquelas pessoas, que temem constantemente perder o emprego que tanto detestam, A Educação traz os habituais jogos de interesses entre diferentes departamentos e as conversas de bebedouro que sempre giram em torno de uma entidade maligna e sem rosto identificada apenas como “Eles” (como em “Eles vão fazer cortes de pessoal”, “Eles decidiram reduzir a cobertura do plano de saúde” e por aí afora).

Com um design de produção óbvio que busca contrastar a brancura sem vida do ambiente corporativo à escuridão deprimente da casa do protagonista, A Educação acerta em seus momentos mais sutis, como ao trazer Jan e seus colegas enfrentando constantes filas para entrar no trabalho, para almoçar, etc. – e, de forma similar, Lütter é inteligente ao empregar uma câmera quase sempre estática em todas as cenas, ressaltando o caráter entediante da rotina do rapaz.

Infelizmente, os tropeços do cineasta ocorrem em número infinitamente maior do que seus acertos, já que o longa parece recheado de ideias mal acabadas como as constantes repetições de estradas percorridas em alta velocidade e do hábito do protagonista de destruir roupas recém-adquiridas para devolvê-las às lojas. Além disso, o coral que comenta as transições da narrativa (algo também utilizado no recente norueguês Happy, Happy) soa mais como distração do que como algo que realmente contribua para o filme, que, ao final, diz pouco e ainda de maneira aborrecida. (2 estrelas em 5)

 

48) Uma Viagem (Izlet, Eslovênia, 2011). Dirigido por Nejc Gazvoda. Com: Luka Cimpric, Jure Henigman, Nina Rokovec.

Com 30 minutos de projeção, os três personagens principais de Uma Viagem, estupidez dirigida por Nejc Gazvoda, já haviam urinado de uma ponte sobre os carros que ali passavam; destruído um carro a pontapés e pauladas; atropelado e rido da morte de um gato; recebido a notícia da morte de uma criança com uma referência casual à similaridade com um filme e promovido um concurso de arrotos e cuspe à distância.

Com isso, se aos dois minutos eu quis sair da sala, aos dez minutos já os odiava e, ao fim, queria matá-los. E saber que dediquei três minutos para escrever estes dois parágrafos dedicados a eles já é algo que me provoca profundo arrependimento. (1 estrela em 5)

 

49) Jogos de Verão (Giochi d’estate, Suíça, 2011). Dirigido por Rolando Colla. Com: Armando Condolucci, Fiorella Campanella, Alessia Barela, Antonio Merone, Roberta Fossile, Marco D’Orazi, Chiara Scolari, Francesco Huang.

Candidato suíço ao Oscar 2012, Jogos de Verão resgata a magia e as dores da infância ao acompanhar duas semanas da vida de um grupo de adolescentes e pré-adolescentes em uma estação de veraneio enquanto suas famílias acampam no local, enfocando brigas, descobertas e paixões em uma narrativa triste, porém sempre humana.

Escrito a oito mãos e dirigido por Rolando Colla, o filme traz como seu centro o jovem Nic (Condolucci), que atua como protetor do irmão mais novo diante das constantes e violentas brigas de seus pais, o explosivo Vincenzo (Merone) e a resignada Adriana (Barela). Já em seu primeiro dia de férias, Nic tem sua atenção atraída por Marie (Campanella, uma revelação), que insiste que sua mãe lhe revele o paradeiro do pai que nunca conheceu. Usando estes conflitos como ponto de partida, o roteiro traça um retrato complexo do relacionamento dos pais do protagonista (Adriana parece se excitar com a violência do marido, embora também a deteste), avalia os efeitos deste sobre os garotos e desenvolve a dinâmica do pequeno grupo que se forma em torno de Nic e que inclui ainda um imigrante chinês e a irmã caçula de Marie.

Sem medo de investir ocasionalmente no melodrama, Jogos de Verão nem sempre se mostra coeso (por que, por exemplo, a mãe de Marie insiste em esconder da filha o que houve com seu pai?), mas isto não o impede de apresentar ao espectador aquele mundo a partir dos olhos de seus jovens personagens – e quando Nic diz ter descoberto um cadáver em uma cabana abandonada, sabemos que aquilo é improvável, mas compreendemos a excitação curiosa das crianças diante da possibilidade. Além disso, o diretor Rolando Colla merece créditos por jamais hesitar em retratar aspectos mais delicados da infância e da adolescência, como a crueldade da qual as crianças são capazes e também a descoberta da sexualidade – e, neste aspecto, Colla se sai notavelmente bem ao enfocar a bela Fiorella Campanella em seu biquíni e em danças sensuais sem jamais parecer estar explorando a jovem atriz de 14 anos de idade.

Merecendo aplausos por sua estrutura bem construída (a primeira brincadeira dos garotos envolvendo a possibilidade de ver um cadáver reflete-se na visita final a um cemitério), Jogos de Verão toca especialmente graças ao seu protagonista que, mesmo tão jovem, mostra-se já endurecido pela vida – e é impossível não se comover ao vê-lo deixar cair uma lágrima apenas por receber, talvez pela primeira vez em sua vida, um gesto autêntico de carinho. (4 estrelas em 5)

 

50) Marathon Boy (Idem, Inglaterra/Índia, 2010). Dirigido por Gemma Atwal.

Quando a diretora britânica Gemma Atwal decidiu acompanhar a história do garotinho indiano Budhia Singh, em 2005, é improvável que tenha imaginado que o projeto tomaria cinco anos de sua vida e acabaria registrando uma situação explosiva que resultaria em prisões, acusações de tortura, conspirações envolvendo o governo de um estado indiano e até mesmo assassinato. Assim, é admirável que a cineasta jamais tenha perdido o foco, conseguindo, com isso, capturar cada etapa daquela trágica jornada com sua câmera e oferecendo ao espectador um acesso impressionante aos principais envolvidos na história.

Vendido pela mãe por uma ninharia a um vendedor ambulante que o agrediria constantemente, o pequeno Budhia Singh foi resgatado da favela pelo treinador de judô Biranchi Das, que o levou para morar no orfanato que mantinha com seu próprio dinheiro ao lado da esposa. Certo dia, irritado com os palavrões ditos pelo menino de três anos, Biranchi o puniu com a ordem de que corresse em volta do pátio da casa e saiu para trabalhar, acreditando que Budhia pararia mais cedo ou mais tarde. Ao retornar cinco horas depois, porém, o sujeito constatou chocado que o garoto permanecia correndo. Impressionado com a resistência da criança, Biranchi decidiu transformá-lo num maratonista – e aos três anos de idade, quando Atwal começa a acompanhar a história, Budhia já havia concluído nada menos do que seis meia maratonas (21 quilômetros).

Construindo uma relação de confiança com Biranchi, Budhia e com a mãe biológica do garoto ao longo dos anos, a diretora monta sua narrativa apenas através do depoimento de vários personagens, jamais empregando qualquer tipo de narração e apenas ocasionalmente incluindo vinhetas animadas que preenchem certas lacunas. Isto, no entanto, não só jamais impede Marathon Boy de oferecer uma visão abrangente de toda a situação como ainda permite que tenhamos acesso a vários pontos de vista acerca da questão.

E por “questão”, entendam “Biranchi Das”. Obviamente obcecado em levar o menino para as Olimpíadas e colocar seu próprio nome nos livros de História, o sujeito jamais esconde seus sonhos de grandeza e revela-se um grande manipulador da mídia. Por outro lado, sejam lá quais forem suas motivações, é fato que tirou inúmeras crianças das ruas, oferecendo a elas carinho, comida e educação – e vários destes órfãos deixam clara sua gratidão a Biranchi ao longo da projeção. Além disso, apesar de ter adotado Budhia legalmente, o treinador jamais impediu que a mãe biológica do garoto o visitasse; ao contrário, ajudou a mulher a arranjar um emprego e a levava para todos os principais eventos disputados pelo menino – e ela também surge no primeiro ato de Marathon Boy tecendo fartos elogios a ele. Ainda assim, é impossível não constatar que Biranchi realmente exagerou ao levar Budhia a correr 67 quilômetros em menos de sete horas a fim de registrar um recorde – e é doloroso ver a criança passando mal, vomitando e sofrendo convulsões ao fim do evento.

Isto, porém, nem se compara ao que aconteceria a Budhia depois que sua mãe, movida por ganância, informações falsas e provavelmente pela pressão do governo, passou a acusar o treinador de ser o oposto de tudo aquilo que ela dissera antes – e é aqui que o acesso conseguido por Gemma Atwel se revela fundamental, já que a diretora chega a registrar um dos novos “protetores” do garoto, um bandido local, dizendo que o obrigaria a correr uma maratona contra a vontade. Como se não bastasse, as acusações de que Biranchi teria agredido Budhia e desviado dinheiro arrecadado para sua criação logo caem por terra quando laudos médicos apontam que o menino não tinha qualquer tipo de marca de agressão e descobrimos que o treinador não teria acesso a qualquer quantia do fundo criado para o pequeno maratonista, mesmo que houvesse dinheiro na conta – e não havia.

A partir daí, porém, Marathon Boy choca o espectador com incidentes que se tornam cada vez mais complexos e graves, sendo incrível que praticamente todos eles tenham sido testemunhados pela câmera da diretora ou recuperados através de uma formidável pesquisa de imagens de arquivo.

Triste e revelador, Marathon Boy é quase épico em sua abrangência e dificilmente será ignorado na corrida ao Oscar 2012. E nem direi que merece mesmo ser lembrado, já que esquecê-lo é simplesmente impossível para o espectador. (5 estrelas em 5)

 

51) Marighella (Idem, Brasil, 2011). Dirigido por Isa  Grinspum Ferraz.

Dirigido pela sobrinha do pensador e guerrilheiro Carlos Marighella, morto pelos militares em novembro de 1969, este documentário é ao mesmo tempo uma investigação particular da diretora sobre o tio que mal conheceu e também um resgate de sua trajetória admirável a partir de cartas (narradas por Lázaro Ramos), fotos, gravações em áudio e depoimentos daqueles que o conheceram.

Cobrindo toda a vida adulta de Marighella, o filme fala rapidamente sobre seus pais, saltando logo para o momento em que largou a faculdade por sentir-se mal em “perseguir um diploma enquanto crianças trabalham para comer” e entrou para o Partido Comunista do Brasil, mudando-se para o Rio de Janeiro a fim de reorganizá-lo depois do levante de 1935. Preso e torturado durante o Estado Novo, ele viveria um breve período de legalidade, sendo até mesmo eleito deputado federal, apenas para voltar em seguida à clandestinidade na qual passou boa parte de sua existência e que culminaria no lançamento do “Manual do Guerrilheiro” e em seu estabelecimento como uma espécie de Che Guevara brasileiro, tornando-o o “inimigo público número 1” da ditadura militar.

Didático ao dividir a vida de Marighella em seis partes (ou “pistas”, como coloca a diretora), o filme é bem sucedido ao evocar a inteligência e o espírito liberal do guerrilheiro, que já se declarava comunista na década de 30, quando isto equivalia a se mostrar disposto a morrer pelo socialismo, defendendo também o ensino secular e o divórcio numa época de moralismo religioso exacerbado (não que hoje seja muito diferente).

Trazendo interessantes depoimentos de seu filho e também de sua ex-companheira Clara Charf, que aos 84 anos de idade se mostra uma mulher ainda bela e extremamente lúcida, Marighella ainda se dá ao luxo de resgatar anedotas da guerrilha, como, por exemplo, ao trazer uma antiga revolucionária que relembra o assalto (ou “desapropriação”, nos termos da época) em que usaram uma metralhadora fabricada de improviso e a arma desmontou completamente no meio da ação.

Pecando apenas pelo excesso de tangentes (como a animação envolvendo a “Prova em Versos” e as digressões sobre o “tio Carlos”, que interessam mais à diretora do que ao espectador, jamais se encaixando organicamente ao restante da narrativa), Marighella pode até não revelar nada de novo sobre o personagem-título, mas é relevante por tentar apresentá-lo às novas gerações e por fazer isto de forma clara e sempre interessante. (4 estrelas em 5)

 

52) Parada em Pleno Curso (Halt auf freier Strecke, Alemanha, 2011). Dirigido por Andreas Dresen. Com: Milan Peschel, Steffi Kühnert, Talisa Lilly Lemke, Mika Seidel, Ursula Werner, Otto Mellies, Bernhard Schütz, Thorsten Merten, Inka Friedrich

Infelizmente, já senti algumas vezes a tristeza de ver um parente querido sendo devastado por doenças lentas e impiedosas: perdi um tio para a Esclerose Lateral Amiotrófica, outro para um câncer de estômago e vi o avô materno de meus filhos diminuindo num hospital por mais de um ano. É um processo que consome não só o doente, mas também sua família e, neste aspecto, este Parada em Pleno Curso merece aplausos por retratar bem a degradação física de um pai de família que, aos 40 anos, descobre-se a poucos meses da morte em função de um glioblastoma.

Demonstrando, ao contrário do ridículo Inquietos de Gus Van Sant, que uma doença como esta traz repercussões físicas graves, nada tendo de engraçadinha ou trivial, o filme de Andreas Dresen consegue ir em apenas 110 minutos do diagnóstico de Frank (Peschel) ao momento em que sua esposa Simone (Kühnert, de A Fita Branca) já se vê movida a desejar vê-lo morto logo em função do sofrimento. Neste meio tempo, acompanhamos o sujeito enquanto tenta se adaptar à notícia de que irá morrer, experimenta os primeiros sintomas colaterais do tratamento, vê sua memória falhando (bem como suas funções cognitivas), deixa de falar e torna-se vítima do próprio corpo, tendo que usar fraldas e receber doses constantes de morfina para suportar a dor – um processo terrível que o ator Milan Peschel retrata com perfeição.

Sem jamais usar trilhas dramáticas que ressaltem o peso da situação, Dresen muitas vezes parece interromper suas cenas na metade, criando uma ideia de recortes do cotidiano que confere verossimilhança à narrativa (algo similar ao feito, por exemplo, no recente Michael pelo austríaco Markus Schleinzer). Demorando a revelar o rosto do médico que diagnostica Frank na cena inicial com o objetivo de ressaltar a impessoalidade do processo (frisando isto ao trazer o sujeito atendendo ao telefone no meio da consulta), o cineasta também explora bem os diários em vídeo mantidos pelo paciente, embora peque ao manter estes breves interlúdios mesmo quando Frank já se mostra incapaz de gravá-los, quebrando a cronologia linear mantida até então e fugindo da lógica narrativa por ele mesmo estabelecida.

Comovente ao ilustrar a união da família de Frank, que enche a casa de bilhetinhos que o ajudem a localizar cada aposento com facilidade, Parada em Pleno Curso também é eficiente ao discutir a reação de Simone à doença do marido, já que, mesmo amando-o profundamente (ou justamente por isso), ela passa a se torturar e a se culpar por desejar sua morte – um sentimento perfeitamente natural, mas não por isso menos complexo ou difícil.

Assim, como o longa conta com tantas virtudes, é lamentável perceber que, no fundo, funciona como um mero exercício narrativo, já que não oferece nada de novo do ponto de vista temático ou narrativo, empalidecendo, por exemplo, diante do dinamarquês Uma Família, que retrata os meses finais da vida de um homem de maneira muito mais tocante e impactante mesmo sem abrir mão do realismo e sem apelar para o melodrama.

Sim, é devastador acompanhar o fim de Frank, mas a pergunta é: afinal, por que o fizemos? E a falha do filme em responder isto é também seu grande problema. (3 estrelas em 5)

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críticas | novos filmes | premiações e eventos

Comentários

4/11/2011 12:47:16 #

André Navarro

A cobertura ficou excepcional. Cacete, 105 filmes. E nem mesmo as últimas críticas, já escritas num estado de exaustão, deixam de ser abrangentes e detalhadas.

Você é Foda.



André Navarro Brasil | Reply

4/11/2011 13:46:13 #

JL

"ctrl+c ctrl+v" no texto do André Navarro!
Parabéns, Pablo! E obrigado pela dedicação.
Abraço,
João.

JL Brasil | Reply

5/11/2011 1:16:54 #

Leandro Moares

Obrigado!

Leandro Moares Brasil | Reply

21/11/2011 20:36:26 #

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