In memoriam

by Pablo Villaça 18. julho 2011 18:40

Quando descobri sua existência, você já estava morta há uma semana.

Foi ao folhear um jornal que vi seu rosto feliz e sorridente me cumprimentar. Bonita e com um brilho intenso nos olhos, você parecia repleta de vida, sonhos e energia - algo que contrastava tragicamente com a moldura que destacava sua foto e um convite à missa de Sétimo Dia organizada em sua memória.

Por alguma razão, não consegui desviar os olhos de seu retrato: como num transe, estudei cada traço, cada detalhe, cada elemento que pudesse me dar uma pista de quem você foi. Nascida em março de 1985, você tinha 26 anos de idade quando deixou de existir - um destino cruel que a sua versão alegre da foto fazia soar ainda mais injusto. Será que ao posar para aquela imagem com tamanha felicidade passou por sua mente a assustadora possibilidade de que ela ilustraria o pior dos convites? Em algum instante de sua juventude invencível você considerou que jamais chegaria a deixá-la para trás?

Fechei o jornal depois de alguns minutos, mas não conseguia parar de pensar em você. O que a teria tirado do mundo? Teria sofrido em função de alguma doença lenta e sádica? Teria partido depois de padecer por alguns dias graças a um mal inexplicável? Morrera sem nem se dar conta do que acontecera em um acidente de trânsito? 

Quem foi você?

Tomado por um impulso inexplicável e inédito, posto que sempre fujo da morte (mesmo de desconhecidos), corri à Internet para tentar descobrir o que havia perdido - ainda que jamais houvesse tido a chance de tê-la em primeiro lugar. Digitei seu nome no Google e encontrei 412 pegadas de sua breve existência. Uma rápida história de quem você foi e do que começou a construir: seu nome na lista de aprovados para o curso de Direito de uma boa universidade, em 2002 (imaginei seu salto de alegria ao descobrir-se naquela relação); o convite online para sua formatura, anos depois (uma conquista que você certamente celebrou mesmo com um leve receio acerca das responsabilidades que sua vida adulta lhe traria); clippings com autos de processos que traziam seu nome, ao lado do título de "advogada", já no início de sua atuação profissional.

Mas vi também fotos suas em festas, cercada por amigos e parentes: aqui, erguia dois dedos num sinal de vitória enquanto abraçava uma colega; ali, surgia dançando com um rapaz loiro que a segurava pela cintura. As imagens me conduziram até seu álbum no Orkut, que, intitulado "2011!!!", indicava sua recepção calorosa àquele que seria seu derradeiro ano e que figuraria ao lado do símbolo fatal que apontaria a data de sua morte - uma realidade que, a julgar por sua euforia nos retratos ali contidos, provavelmente lhe pareceria impossível, uma piada de mau gosto, apenas um pesadelo distante.

Continuei minha busca por quem você foi: no Facebook, sua foto do perfil já fora trocada pela reprodução do chamado à sua missa de sétimo dia - uma tarefa simples que deve ter provocado uma dor indizível naquele que a executou. Ali, entre seus "interesses e atividades", uma página de apoio a Serra que me fez lembrar de que não deveria idealizá-la, que me forçou a constatação de que, viva fosse, talvez não aprovasse minha defesa da candidatura Dilma Rousseff. Ao mesmo tempo, como descobrir sua adoração por Alexandre Dumas pai, Asimov e Machado e não flertar com a ideia de que nossos gostos literários similares contornariam nossas divergências políticas?

Mas não: o aviso de que você estava "em um relacionamento sério" apontava que outro homem já sonhara com você e a alcançara de alguma maneira. Senti uma ponta de ciúme ao pensar que ele tivera a oportunidade de conhecê-la, de encantá-la, de fazê-la sorrir, mas também me compadeci da dor que ele agora sentia por não tê-la mais ao seu lado, arrancada de seus braços por uma tragédia que, independentemente de sua razão, não deveria ter lugar em uma vida que durara apenas 26 anos.

Ao final, não descobri o que a levou ou mesmo quem você foi de fato, mas sofri por sua partida.

E por saber que o que resta de você agora são apenas as memórias daqueles que te amaram e os poucos traços que a Internet conservou de sua breve trajetória no planeta.

Tags:

cotidiano

Comentários

18/7/2011 20:54:44 #

Felipe Fonseca

Não sei a quem é endereçado, mas coloquei alguém que se encaixa no texto e que possuiu uma trajetória parecida. Muito triste. E bela homenagem.

Felipe Fonseca Brasil | Reply

18/7/2011 20:56:07 #

Raphael Braga

Um passado que você nunca irá vivenciar. Isso é tão triste...

Raphael Braga Estados Unidos | Reply

18/7/2011 20:57:19 #

Raphael Braga

Ainda mais quando o futuro também te é neagdo.. *Suspiro*

Raphael Braga Estados Unidos | Reply

18/7/2011 20:57:28 #

Marco

Um dos seus textos mais bonitos e tristes, Pablo. E sem querer partilhei da sua dor...

Marco Brasil | Reply

18/7/2011 21:00:45 #

Adam

Puta que pariu! me arrepiei... texto sensacional e uma bela homenagem a essa encantadora pessoa que mesmo depois de morta continuou encantando!

Adam Brasil | Reply

18/7/2011 21:05:10 #

Luciana

Pablo, que emocionante!

Luciana Brasil | Reply

18/7/2011 21:09:59 #

Bruno Vieira

Strawberry Fields Forever.

Bruno Vieira Brasil | Reply

18/7/2011 21:18:06 #

Carlos Willow

Tem tudo pra ser a história da advogada, baiana como eu, que foi vítima do violento trânsito de São Paulo.Um senhor alcoolizado no seu porche a mil por hora tirou a vida de Carolina Santos, mas esta tinha 28 anos.

Carlos Willow Brasil | Reply

18/7/2011 22:45:20 #

Victor Bruno

Eu achava que o texto era para esta Carolina Santos, Carlos.

Talvez até seja, mas o Pablo pode ter mudado a idade exatmente para não identificarmos a pessoa.

Victor Bruno Brasil | Reply

19/7/2011 17:54:03 #

Carlos Willow

Pode ser mesmo, Victor.

Carlos Willow Brasil | Reply

18/7/2011 22:46:34 #

Victor Bruno

Eu achava que o texto era para esta Carolina Santos, Carlos.

Talvez até seja, mas o Pablo pode ter mudado a idade exatmente para não identificarmos a pessoa.

Victor Bruno Brasil | Reply

18/7/2011 21:23:31 #

Carlos Willow

Porsche

Carlos Willow Brasil | Reply

18/7/2011 21:52:02 #

Rodrigo Cesar C. Nóbile

Não exagero quando digo que fez ver minha vida de outra forma.
Pensei muito, pesquisei sobre mim, tentei me ver pelas minha marcas na internet, como se já estivesse morto, cheguei a chorar.
Ainda estou meio paralisado, sofrendo uma pequena epifania, gostaria de agradecer por esse texto, que me proporcionou um pouco mais de auto conhecimento, que eu valorizo tanto.

Rodrigo Cesar C. Nóbile Brasil | Reply

18/7/2011 22:06:02 #

carlos

o que aumenta a tristeza é saber que, por ele ser rico e ter sido no trânsito e no Brasil, as chances do cara ser preso são quase zero.

carlos Brasil | Reply

19/7/2011 19:37:40 #

Dom Quixote

Eu entendo que você possua um sentimento de impunidade em relação aos ricos, afinal o sistema criminal como um todo é realmente seletivo.
Mas não se esqueça, nesse caso especificamente, que ainda que o motorista do Porsche se encontrasse em alta velocidade, a vítima(e em acidente de trânsito ambos são vítimas) fatal havia cruzado a rua com SINAL VERMELHO, o que, no mínimo, atenua em muito a culpa daquele que, diante de um sinal VERDE prossegue.

Dom Quixote Brasil | Reply

18/7/2011 22:08:39 #

Émerson Silva

O termo técnico pra um texto como esse é: Do caralho!!!

É por textos sensíveis como esse que afirmo que o Pablo Villaça é uma das mentes mais brilhantes desse país.

Aquele abraço! E meus sentimentos...seja lá pra quem for!

Émerson Silva Brasil | Reply

18/7/2011 22:11:37 #

Alê Camargo

Nossas vidas - não importa quem somos, ou quanto tempo teremos - são muito breves.
Aproveitem agora.

Parabéns pelo texto, Pablo.

Alê Camargo Brasil | Reply

18/7/2011 22:12:09 #

Carlos Goettenauer

Até eu que sou calado no comentário fui obrigado a me manifestar! Sem parâmetros! Pablo, agora resolveu escrever contos (ainda que inspirado em realidade, não sejamos exigentes com categorias literarias).
Eu diria aquele termo técnico acima citado, se não tivesse medo de colocar palavrões na Internet.;)

Carlos Goettenauer Brasil | Reply

18/7/2011 22:36:27 #

Rita

Mortes públicas, vidas anônimas.

Rita Brasil | Reply

18/7/2011 22:45:15 #

charles

Texto fantástico, Pablo. O modo como abordou toda a situação nos faz refletir e emocionar.

Isso só mostra o quanto nossas vidas são frágeis e mesmo clichê: devemos aproveitar cada instante como se fosse o último.

charles Brasil | Reply

18/7/2011 23:02:48 #

Luiz Lagares

Belissimo texto Pablo.

Me fez lembrar uns textos que vc postava no início do blog com os dizeres "para consumo próprio" mas sempre de imensa sensibilidade. Sobre o conteúdo, para mim tanto importa se esta é uma história real ou um criança da sua cabeça, dependerá da percepção quem ler.

Parabéns.

Luiz Lagares Brasil | Reply

18/7/2011 23:13:06 #

Alexandre Luiz

E tem quem diga que ele devia escrever só sobre cinema!
Belíssimo texto! Parabéns!

Alexandre Luiz Brasil | Reply

18/7/2011 23:13:20 #

Elvis @tocadolobo

=O
Uau!

Belíssimo texto.

Elvis @tocadolobo Brasil | Reply

19/7/2011 0:28:43 #

Renato

Qua baixo astral.

Renato Brasil | Reply

19/7/2011 8:40:49 #

Aquiman Costa

Texto lindo e emocionante.

Aquiman Costa Brasil | Reply

19/7/2011 10:38:36 #

Ali

é incrivel o fanatismo de Pablo Villaca por um partido politico. mesmo em um texto onde o bicho esta totalmente comovido devido a uma morte, falecimento, partida desta para melhor, como o chamem, insiste em botar PT no meio.

Triste o texto sim, mais mais triste ainda por este fato da vida do autor. nem mesmo o mais fanatico dos fanaticos dos Testemunhas de Jeová ousou falar durante o 11 de setembro "que triste, morreram bastante outras Testemnhas". Aqui a morte vira partidarismo. Apenas por uma linha, um paragráfo. Mas mesmo assim...

Ali Brasil | Reply

19/7/2011 11:10:26 #

gigopepo

Foi um comentário pertinente sobre os interesses de alguém. Quem tá politizando o texto é você.

gigopepo Brasil | Reply

19/7/2011 15:24:12 #

Ali

Não, não foi pertinente e ele politizou sim. Começou a frase "Ali, entre seus "interesses e atividades" e poderia ter continuado "vi que voce gostava de tenis e eu também" ou então "estava gastronomia e também gosto de bons restaurantes" ou ainda "notei que não gostava dos mesmos filmes que eu. Mesmo assim me solidarizei."

De todas as características da pessoa Pablo Villaça mencionou PT. Por quê? Porque é assim que ele divide o mundo. Não entre pessoas más e boas, não entre respeitadores da lei e bandidos, não entre religiosos e ateus, nem mesmo entre cinéfilos e "ignorantes"

O texto dá a entender, naquela frase e paragrafo específicos, que para Pablo Villaca existem os petistas e não-petistas. E ela, apesar de ser do segundo grupo, ainda sim merecia viver.

Ali Brasil | Reply

19/7/2011 19:44:16 #

Henrique

Ai ai... =)

Henrique Brasil | Reply

20/7/2011 2:32:11 #

Felipe Hänsell

Ai ai... [2]

Eu jurei que não ia falar nada, mas lá vou eu.

Não, o texto não dá a entender que existem petistas e não-petistas. O Texto dá a entender que mesmo com ideologias políticas diferentes, as pessoas podem interagir, relacionar, trocar experiências, dividir conhecimento... Eu sei que você pode não estar acostumado com isso meu amigo, mas respeitar a opinião e a posição política das pessoas é o principal conceito da democracia.

E estamos em um meio democrático antes que diga qualquer coisa. Prova disso é o fato de que todos podemos fazer comentários neste blog sem passar por nenhum filtro preconceituoso de aceitação.

=)

Felipe Hänsell Brasil | Reply

19/7/2011 12:56:03 #

Ana Recalde

Sem querer ser mais uma pessoa a lhe parabenizar, mas é impossível fugir aqui, parabéns!
Texto fantástico!

Ana Recalde Brasil | Reply

19/7/2011 13:19:54 #

Thiago Silva

Imaginei o Pablo, no momento em que viu a imagem, tendo a mesma reação do Benjamim Espósito, em El segredo de tus ojos, quando se depara com o corpo da esposa do Morales. Parabéns, cara. Muito bom. Já amo essa garota sem nem conhecê-la.

Thiago Silva Brasil | Reply

19/7/2011 13:57:39 #

ErikaOishi

Mais uma para dar os parabéns e falar que se emocionou.

Creio que esse foi seu texto mais sensível.

ErikaOishi Brasil | Reply

19/7/2011 14:03:31 #

Bruno Tasca

Belo texto, de fato.
Ótima - ainda que triste - forma de voltar à atividade.

Bruno Tasca Brasil | Reply

19/7/2011 15:33:57 #

Arthur

Não é possível dizer nada (ou não deveria ser) além de parabéns. Mais um excelente e sensível texto.

Arthur Brasil | Reply

19/7/2011 15:34:34 #

Fernando

Por essas e outras que não consigo ficar sem visitar este blog.

Fernando Brasil | Reply

19/7/2011 16:07:47 #

Rui

Opa!! Muito sensível e interessante.

Rui Brasil | Reply

19/7/2011 18:30:05 #

Virgílio Souza

A sensibilidade impressiona. Parabéns, Pablo.

Virgílio Souza Brasil | Reply

19/7/2011 23:28:29 #

Marcelo Formiga

Texto simplesmente hipnotizante.

Marcelo Formiga Brasil | Reply

20/7/2011 0:15:43 #

Amanda

Que triste a morte levar uma pessoa tao jovem.

Amanda Estados Unidos | Reply

20/7/2011 1:37:01 #

V!tor Sousa

Texto arrebatador. Especialmente porque já me peguei, assombrosamente, fazendo o mesmo tipo de pesquisa.

V!tor Sousa Brasil | Reply

20/7/2011 8:07:26 #

Sérgio

Putz... Li o texto inteiro, movido pela curiosidade e esperança de ver o nome da homenageada revelado. Que decepção! Tong Mas belo texto!

Sérgio Brasil | Reply

20/7/2011 22:38:41 #

Paulo Vinícius

Muita gente me pergunta:

"O que tanto você lê no Cinema em Cena e neste Blog? O que este Pablo Villaça tem de tão especial?"

Acho que esse post resume tudo o que eu poderia responder.

Oxalá, tivéssmos mais corações como o seu, Pablo! Oxalá!

Paulo Vinícius Brasil | Reply

21/7/2011 13:04:36 #

Adolfo Brás

Simplesmente fantástico o seu texto... Não sei a quem você se refere nele, mas foi tocante, e o principal, foi excelente justamente por nos tocar mesmo sem sabermos exatamente de quem se fala...

Adolfo Brás Brasil | Reply

22/7/2011 12:49:54 #

Baldin

Se você se refere mesmo ao desgraçado da Porsche, ele alegou ter "medo de assalto".

Já pagou mais de meio milhão na fiança... o que deveria ser inafiançável.

Baldin Estados Unidos | Reply

22/7/2011 14:11:42 #

Pablo

Não, não escrevi pensando no caso do Porsche, que nem conhecia. Mas poderia ser.

Pablo Brasil | Reply

23/7/2011 0:56:06 #

Marco Antonio Escocio

Muito bonito o seu texto, Pablo!
Mas eu queria saber que é a moça do texto. Ou você está fazendo várias referências, não só a um caso específico ?
De qualquer forma, muito bonito o seu texto!

Marco Antonio Escocio Brasil | Reply

24/7/2011 0:44:48 #

Daniel Grandinetti

Com esse texto, você conseguiu confessar que "fuça" no Orkut e no facebook das pessoas, faz pesquisa no Google para saber mais detalhes da vida delas e ainda possui uma pitada (ou uma pitadona) de curiosidade mórbida... Coisas que a maioria das pessoas faz e sente, mas que elas negam frequentemente. E, mesmo assim, sua confissão foi de tal naturalidade, e manifestou tanta humanidade, que nem dá pra zombar de você.

Daniel Grandinetti Brasil | Reply

24/7/2011 15:04:51 #

Carla

Lindo o modo como o texto capta (ou inventa) sutilezas e belezas na vida de alguém que só existiu, para o narrador, por instantes numa foto... Adorei!

Carla Brasil | Reply

24/7/2011 15:08:59 #

Carla

Saber quem é? Desnecessário. Acho que ela fica mais bela (e comovente) sendo "uma..." - e só... sem nome.

Carla Brasil | Reply

26/7/2011 10:56:01 #

SAULO

Ei Pablo, olha só:

celebridades.uol.com.br/.../...ra-de-cearense.jhtm

SAULO Brasil | Reply

25/12/2011 21:04:22 #

Cherlayne



Quando comecei a ler, imaginei que fosse um conto. Falei com os meus botões : outra faceta? Mas não. Foi um dos textos mais sensíveis que li sobre alguém que deparou com morte cedo demais.

Cherlayne Brasil | Reply

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