No último dia 5 de maio, data em que os Estados Unidos celebram a cultura mexicana num reconhecimento à vasta população imigrante do país, cinco estudantes combinaram de ir à escola usando camisas que exibiam a bandeira norte-americana, numa provocação clara à data e aos colegas de origem latina. Como resultado, receberam ordens da diretoria de voltarem para casa antes que algum conflito ocorresse no colégio. É claro que imediatamente a extrema direita conservadora e preconceituosa se manifestou contra a escola, dizendo que os alunos tinham o direito de "sentir orgulho" dos Estados Unidos - algo que ninguém havia questionado.
Em resposta ao caso, o crítico de cinema Roger Ebert, assumidamente liberal, postou a seguinte consideração em
seu twitter:
"Garotos que usam camisas com a bandeira (norte-)americana no 5 de Maio deveriam ter que dividir a mesa com aqueles que usam a foice e o martelo no dia 4 de Julho".
O raciocínio de Ebert não poderia ser mais claro, mas imediatamente a "twittosfera" reacionária passou a atacá-lo, sugerindo que ele deveria deixar os Estados Unidos já que não se orgulha do país - o que levou Roger a publicar
um texto sobre o assunto em seu site. No entanto, o que mais me assustou neste caso foram as mensagens deixadas por alguns imbecis que, cientes da longa luta de Ebert contra o câncer (e que o deixou desfigurado), publicaram mensagens como:
"Quantos pedaços devem cair do rosto de (Roger Ebert) antes que ele entenda que deve se calar?"
"Eu estava pronto para dar uns tabefes na cara gorda de Ebert, mas aí me lembrei (que ele está desfigurado). E pensei: legal!"
"Ele estará morto em breve, então que se foda!"
Usar os problemas de saúde de alguém numa discussão (mesmo que estes estejam no passado) é algo que, sinceramente, considero inaceitável - e não creio que pense assim por ter passado por um grave problema de saúde que quase me matou, já que estou certo de que pensaria da mesma forma ainda que nunca tivesse passado por aquelas cirurgias em agosto de 2007. Acredito que usar uma questão pessoal, particular, de alguém com quem nos desentendemos é deselegante, cruel e sinal de que não estamos muito seguros de nossos argumentos.
Aliás, este incidente envolvendo Ebert me lembrou de uma outra briga que está ocorrendo em Belo Horizonte e que envolve um amigo muito querido, Pedro Olivotto. Antigo dono dos cinemas Liberdade, Pedro vendeu sua parte das salas para o Grupo Usina há pouco mais de um ano - e agora entrou na Justiça por sentir que está sendo lesado no negócio.
(Aqui abro um parênteses importante: não conheço detalhes do processo e, portanto, não vou opinar sobre o mérito da causa. Vou apenas discutir a natureza dos argumentos apresentados pelo lado que se opõe a Olivotto, como verão a seguir.)
Pois bem: em
matéria publicada por meu (também querido) amigo Paulo Henrique Silva no jornal Hoje em Dia, o dono do Grupo Usina, Anderson Faria, é citado na seguinte passagem:
"(Faria) ataca Olivotto, afirmando que o ex-proprietário está equivocado,
“demonstrando que seus problemas de saúde permanecem”, e que “a
administração do cinema não está sujeita às intempéries do Sr. Pedro".
E foi aqui que senti vontade de atirar o jornal do outro lado da sala, tamanha minha frustração com a postura de Faria. Pois o fato é que, há alguns anos, Pedro enfrentou um câncer gravíssimo e se submeteu a um tratamento pesado e demorado. Pai de dois filhos jovens, meu bravo amigo combateu a doença com elegância, coragem e determinação, vencendo-a para grande alívio não só de sua família, mas de seus muitos amigos. E como toda vítima de câncer, ele continua a monitorar a saúde por saber que o risco de uma recidiva é real.
Agora pergunto: o que o câncer (ex-câncer! Toc, toc, toc.) enfrentado por Pedro tem a ver com a disputa judicial descrita na matéria de Paulo? Absolutamente nada. Nada, nada, nada. Zero. Nadica de nada. Limitado a um órgão do aparelho digestivo, ele jamais poderia ter influenciado as ações ou o comportamento de Olivotto e, portanto, citar a doença neste contexto representa apenas um ato de covardia e, sim, crueldade. Especialmente se considerarmos que, como já dito, Pedro tem filhos jovens e, claro, já vive sob o peso de temer um retorno da doença. (Que não voltará!)
Acho que o Grupo Usina é fundamental no cenário cultural de Belo Horizonte e, como cinéfilo, bato palmas para qualquer empresário que invista em salas de cinema - mas ao dizer esta frase, Anderson Faria demonstrou apenas ter perdido completamente a noção do que seria aceitável numa discussão como esta. (Como se não bastasse, Pedro Olivotto ainda é um homem fundamental, importantíssimo, na história da cinefilia mineira. Suas contribuições para o nosso Cinema, suas iniciativas para aproximar o público da Sétima Arte, são públicas e notórias - e é por isto que ele tem o respeito de qualquer cinéfilo que conheça sua trajetória e mereceria, portanto, um tratamento mais honroso mesmo de seus adversários na esfera jurídica.)
Ora, todos aqui sabem como desprezo Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi. Isto não quer dizer, porém, que eu celebraria ou trataria com ironia qualquer problema de saúde que estes viessem a ter - e garanto que jamais seria vil a ponto de agredi-los ao usar uma doença para diminui-los. Há limites para qualquer briga, desentendimento ou bate-boca. E acredito que Ebert e Olivotto foram vítimas de pessoas que, infelizmente, parecem não conhecer estes limites.