Após assistir às duas primeiras temporadas de House, posso dizer que um episódio típico da série transcorre da seguinte maneira:
Dois adultos brincam com uma criança. Todos estão felizes. Subitamente, o pai começa a tossir descontroladamente. Ele fica rubro enquanto a esposa tenta ajudá-lo, desesperada. Finalmente, ele expele um pedaço de pão da garganta e respira aliviado. Nesse instante, o filho de 5 anos do casal desmaia e começa a ter convulsões.
Embora nunca tenha tido qualquer problema de saúde, o menino agora se encontra à beira da morte e alguém tenta fazer House se interessar pelo caso.
- A ficha diz que ele é diabético. Caso resolvido. Que tédio. - diz House.
- O nível de glicose da criança está normal há horas.
- Tirem a insulina e isso mudará.
- Mas House... ele não recebeu insulina nas últimas 10 horas...
House ergue os olhos. Foi fisgado.
- Diagnóstico diferencial, pessoal.
- Sarcoidose.
- Ele não está com febre.
- Linfoma.
- Os leucócitos estão normais.
- Lúpus.
- O ANA deu negativo.
- Imaginem que o corpo é uma pedreira. Algumas rochas são partidas por dinamite e pedregulhos se espalham por todo o lado. Um buraco foi aberto, mas as partículas agora estão no ar. Entenderam a metáfora?
- Síndrome de Villaça-Ebert!
- Mas só ocorreram 7 casos em toda a história da Humanidade!
- Iniciem o tratamento com kaeloxina e mertenato de zaninose.
O paciente melhora.
- Acertamos.
O paciente piora.
- Diagnóstico diferencial, pessoal.
- Sarcoidose.
- Linfoma.
- Lúpus.
- Mas os exames deram negativo.
- Talvez eles estejam errados.
- Façam uma punção lombar, uma tomografia e o teste do pezinho.
- Todos negativos. Você estava errado, House.
O protagonista faz piadas racistas sobre Foreman, misóginas sobre Cameron e xenofóbicas sobre Chase. E diz que Cuddy é um travesti.
Os pagers de todos tocam simultaneamente.
- Há algo errado com o paciente.
- Ele ficou verde!
- Isso é ótimo. - comemora House - É um sintoma novo. Que doença deixa alguém com taxa de leucócitos alta, sem febre e verde?
- Sarcoidose.
- Linfoma.
- Lúpus.
- Encefalopatia idiopática primária de Braxton-Hicks.
- Mas nenhum dos sintomas se...
- Em 0,3% dos casos, a doença pode se manifestar assim caso o paciente tenha olhos azuis. Iniciem o tratamento com soro caseiro, AS infantil e corticóides.
- Mas não deveríamos testar...
- Não há tempo! Os rins dele irão parar de funcionar em 37 minutos e o fígado está morrendo!
O paciente piora.
- Alguém está mentindo. Mas como...
Nesse momento, Wilson faz um comentário inocente ou algum paciente do pronto-atendimento diz algo que finalmente leva House a perceber o que está acontecendo.
House sai da sala.
- House vai conversar com um paciente?!
- Ele faz isso em todo episódio, não sei por que sempre ficamos surpresos.
House entra no quarto do paciente e aponta a bengala para o pai da criança.
- Pela mancha azul nas pontas dos seus dedos, pelo lenço que tentou esconder no bolso e pela descoloração deixada por sua aliança, vejo que você é estivador. Você disse que era poeta. Por quê?
- Eu não achei que importasse.
- Seu idiota, você quase matou seu filho! Por sua causa e somente por sua causa tratamos o garoto com medicamentos perigosos e o submetemos a uma penca de exames arriscadíssimos. Ele está com catapora. Iniciem o tratamento.
O menino é curado e sai do hospital sem seqüela alguma. House é visto pensativo enquanto toca piano num ambiente escuro.
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Isto, amigos, se chama "fórmula" e sua causa, para usar termos médicos, não tem nada de idiopática: se algo faz sucesso, para que mudar? Este é o problema de grande parte das séries de televisão e da maioria absoluta das continuações no Cinema: os realizadores, cientes de que algo no que criaram agradou os espectadores, querem manter o show na estrada, mas sem correrem qualquer risco - e simplesmente repetem o original ad nauseam, mudando uma ou outra coisa para dar a impressão de que algo novo está ocorrendo. (E é por esta razão que episódios que tentam fugir da rotina acabam ganhando prêmios e a admiração dos fãs, como Três Histórias, The Mistake e Euforia Partes 1 e 2.)
Uma das coisas que mais admiro em Lost, aliás, é justamente o fato de seus criadores se arriscarem tanto no que diz respeito à estrutura básica da série: quando os flashbacks começaram a se tornar repetitivos, eles introduziram o interessante conceito de flashforward (um recurso narrativo bem mais raro do que se imagina) - e antes que este também passasse a cansar, a série assumiu uma estrutura completamente nova através das viagens no tempo.
Também é por isso que temporadas menores como as de Dexter são mais eficientes como narrativa, rivalizando até mesmo com boa parte das produções para Cinema: em vez de contar uma historinha diferente a cada semana, Dexter é planejada como uma grande trama de 480 minutos de duração - e, assim, cada "episódio" simplesmente conta um pedaço deste "filme" de 8 horas.
Mas voltando a House: se a série não é um fracasso, isto se deve, claro, ao protagonista: House provavelmente aparecerá, no futuro, naquelas listas de "grandes personagens da televisão" - mas duvido muito que a série em si seja citada como um exemplo de boa televisão. E isto é uma pena, já que, confesso, também considero House (graças ao seu excelente intérprete Hugh Laurie) fascinante - e pretendo, inclusive, continuar a assistir a série, que representa um entretenimento agradável (embora jamais vá ter peso dramático; já chorei até pelo vilão Ben Linus de Lost, mas jamais me ocorreria chorar por qualquer dos personagens de House, mesmo em episódios dramáticos e eficientes como Euforia Parte 2).
Isto não quer dizer, claro, que eu admire House como médico. Aliás, quando escrevi no Twitter que não gostaria de ser atendido por ele, alguns leitores defenderam o personagem, dizendo que ele é brilhante, só pega casos complicados, que adorariam tê-lo como médico e por aí afora. Em outras palavras: permitiram que o conceito do personagem ofucasse seu senso crítico.
E aqui entra o elemento "eu" do título desse post.
Há menos de dois anos, eu estive bem perto de morrer. Depois de uma cirurgia aparentemente bem-sucedida da qual me recuperei até com certa rapidez, recebi alta e fui para casa certo de estar saudável. Dois dias depois, estava de volta ao hospital com dores terríveis, exame de sangue completamente alterado e vomitando. Por outro lado, não tinha febre e o ultrassom e a tomografia não identificavam nada claramente.
House iniciaria um tratamento imediatamente a partir de hipóteses diagnósticas. E me mataria, já que, como qualquer médico pode atestar, oferecer o tratamento errado a um paciente é geralmente algo mais danoso do que a doença em si. Se fosse real, House já teria perdido sua licença há anos.
Permaneci quatro dias internado e piorando rapidamente. Eu sentia que estava morrendo, que meu corpo estava parando de funcionar. Meu abdômen inchou e eu não conseguia dar dois passos sem ajuda. Nesse período, fiz várias gasometrias (um exame de sangue doloroso, já que colhe sangue arterial, não venoso), tomografias (com contraste e sem), ultrassons e por aí afora. Curiosamente, foi um velho e tradicional raio-X de abdômen que levou os médicos ao diagnóstico final.
O resultado do último exame saiu às 22 horas do dia 14 de agosto. Às 7 da manhã do dia seguinte eu já estava sendo operado. E aqui estou.
Em outras palavras: House pode até ser um personagem divertido (para seus colegas, nunca para os pacientes), mas, no que diz respeito à Medicina, fico mesmo com o Dr. Gustavo Abras e com sua fantástica equipe do Hospital Madre Tereza.