by Pablo Villaça
22. julho 2008 19:26
(Uma pergunta: qual deveria ser a freqüência desta série?)
O leitor Rogério Vieira foi o primeiro a identificar Os Brutos Também Amam como a cena misteriosa #08. Dirigido por George Stevens em 1951 e lançado dois anos depois, Shane (seu título original) é um western que, apesar de contar com os tipos clássicos (o fazendeiro sob ataque; a esposa sofrida; o pistoleiro cruel; o latifundiário inescrupuloso; o herói rápido no gatilho; etc), é enriquecido pela complexidade psicológica com que desenvolve não apenas o protagonista, mas também sua relação com a família Starrett. Retratado por Alan Ladd como um sujeito de passado obscuro, mas com um óbvio desejo de encontrar um lugar calmo no qual possa fixar-se, Shane é, também, um homem que, de certa forma, parece buscar o conflito, envolvendo-se em situações que não lhe dizem respeito e que permitem apenas que ele possa voltar a usar suas armas.
Ambientado num período em que o Velho Oeste já estava sendo domesticado pelas leis mais rigorosas contra tiroteios, o filme é normalmente lembrado em função da encantadora performance do garotinho Brandon De Wilde (indicado ao Oscar e cuja morte precoce, aos 30 anos, roubou-lhe uma promissora carreira), mas o fato é que as atuações são sólidas de cima a baixo: Van Heflin, sempre intenso, encarna a firmeza de caráter - e a teimosia - de um homem que não quer acovardar-se diante da família; Jack Palance (também indicado ao Oscar) surge irônico e ameaçador num papel que lhe oferece apenas meia dúzia de falas; o eterno coadjuvante Elisha Cook Jr. comove com sua morte enlameada; Ben Johnson interpreta um capanga bem mais complexo do que imaginávamos inicialmente (é ele quem aparece na cena misteriosa, brigando com o herói); e minha musa Jean Arthur, aos 51 anos e em seu último papel no cinema antes da precoce aposentadoria, retrata com sensibilidade uma mulher que, mesmo claramente tomada pelo amor e pelo respeito ao marido, não consegue evitar uma óbvia atração pelo estranho que surge em seu rancho. Mas talvez a performance mais injustamente ignorada de Shane seja aquela oferecida por Emile Meyer, que, aos 41 anos, encarnou com perfeição o velho Rufus Ryker, oferecendo, no processo, um "vilão" que tenta agir razoavelmente, chegando a explicar, com bastante eloqüência, as razões que o levam a se considerar dono de todas aquelas terras.
E não podemos nos esquecer, é claro, da maravilhosa fotografia de Loyal Griggs, que explora magnificamente bem as belíssimas locações.
Dito isso, segue a cena de hoje: