Da
talentosíssima geração de realizadores surgida na TV norte-americana dos anos
1950, poucos foram tão prolíficos e longevos quanto Sidney Lumet, que nos foi
tirado no último sábado, aos 86 anos.
Lumet filmava muito e filmava rápido (algo que o próprio atribuía aos extensos
ensaios pré-filmagem). E filmou até próximo de sua morte. Seu último filme foi ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO, um vigoroso drama de crime de
2007. Foi o gênero, aliás, que o marcou: ATÉ OS DEUSES ERRAM (1972), SERPICO
(1973) e o inigualável UM DIA DE CÃO (1975), ambos com Al Pacino, O PRÍNCIPE DA CIDADE (1981), NEGÓCIOS DE FAMÍLIA (1989), Q & A (1990), SOMBRAS DA LEI (1997), entre outros.
Mas
mesmo com essa visível preferência pelo universo sórdido da corrupção e da
criminalidade, Lumet transitou como poucos por vários outros gêneros. Fez
dramas, comédias, policiais, mistérios, musicais, suspenses, adaptações de peças
teatrais e roteiros originais. E sempre com a mesma sobriedade narrativa que
pode muito bem ser sua marca autoral.
Lumet
era um diretor que “montava com a câmera”, como sentenciou o também cineasta
Peter Bogdanovich, que o entrevistou para seu fabuloso livro AFINAL QUEM FAZ OS FILMES, lançado no Brasil pela Companhia das Letras. Isto quer dizer que
Lumet geralmente sabia exatamente como cada cena ou sequência seria montada,
antes mesmo de filmar. E, por isso, filmava sempre apenas o suficiente para
obter o que desejava, deixando poucas opções de montagem, o que acelerava a
produção dos filmes. Um método em extinção, lamenta Bogdanovich, do qual Lumet
foi dos últimos mestres.
Mesmo
considerando sua extensa carreira no cinema, é de se lamentar que vários de seus
filmes seminais não tenham sido ainda lançados em DVD no Brasil. E nenhum em Blu-ray. Como o policial SERPICO, um dos papéis icônicos de Al Pacino, ARMADILHA MORTAL (1982), um
excitante jogo de gato e rato entre Michael Caine e Christopher Reeve e o dramaDANIEL (1983), sobre o filho de um casal executado nos anos 1950, acusados de
espionagem. Ou ainda A COLINA DOS HOMENS PERDIDOS (1965) e O GOLPE DE JOHN ANDERSON, duas de suas
colaborações com Sean Connery. Quem, aliás, Connery procurou quando decidiu ser
levado a sério como ator após deixar o cargo de James Bond? Ele mesmo, Lumet.
Pois
o cineasta era conhecido como um diretor de atores, ou seja, capaz de extrair o
melhor de seu elenco, seja ele de estrelas ou de desconhecidos. Já em seu
excepcional filme de estréia, 12 HOMENS E UMA SENTENÇA (1958), Lumet já
nivelava por cima, ou seja no nível de seu astro Henry Fonda, os demais onze
integrantes de seu júri. Veteranos e jovens também rendiam igualmente em suas
mãos, seja um Paul Newman , que dá uma de suas maiores interpretações em O VEREDITO
(1982), seja River Phoenix, maravilhoso em O PESO DE UM PASSADO (1988). Vários
foram indicados ao Oscar sob sua condução, como os já citados Newman e Phoenix,
e um punhado deles chegou a ser premiado com a estatueta. Como foi o caso de
Peter Finch, lembrado postumamente por seu desempenho visceral no contundente REDE DE INTRIGAS (1976), uma das maiores críticas ao universo da TV,
território que Lumet conhece bem.
Apesar
da fama com os atores, os quais tratava com carinho e respeito, Lumet também era
preciso com a câmera, a qual considerava outro astro de seus filmes. É difícil
apontar um plano ou um movimento de câmera gratuito em seus filmes. A câmera
estava sempre a serviço de suas intenções narrativas, sem afetações formais. Nem
mesmo quando filmava a Nova York estilizada do esquisito O MÁGICO INESQUECÍVEL
(1978, lançado em DVD no Brasil como O FEITICEIRO), sua versão musical de O MÁGICO DE OZ com elenco completamente negro, liderado por Diana Ross e Michael
Jackson.
Sidney
Lumet era conhecido ainda pela humildade com a qual tratava sua profissão.
Concebeu, assim, um de meus livros de cinema favoritos: FAZENDO FILMES,
lançado no Brasil pela Rocco. É onde expõe com clareza e ternura o dia a dia de
um cineasta. E Lumet foi um dos grandes.
SIDNEY LUMET EM DVD NO BRASIL:
12 HOMENS E UMA SENTENÇA (1957, MGM/Fox)
*****
LIMITE DE SEGURANÇA (1962, Sony) *****
ATÉ OS DEUSES ERRAM (1972, PlayArte) ***
ASSASSINATO NO EXPRESSO ORIENTE (1974, Universal) ***
UM DIA DE CÃO (1975, Warner)
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REDE DE INTRIGAS (1976, MGM/Fox) ****
EQUUS (1977, MGM/Fox) ***
O MÁGICO INESQUECÍVEL (1978, Universal, como O FEITICEIRO)
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O VEREDITO (1982, Fox) ****
O PESO DE UM PASSADO (1988, Warner) ****
NEGÓCIOS DE FAMÍLIA (1989, Fox) ***
Q & A - SEM LEI, SEM JUSTIÇA (1990, Fox) ***
UMA ESTRANHA ENTRE NÓS (1992, Universal) **
SOMBRAS DA LEI (1997, NBO) ***
SOB SUSPEITA (2006, NBO) ***
ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO (2007, Europa Filmes) ****