Nos anos 1980, o
inglês Peter Greenaway surgiu como uma saudável alternativa ao cinema pop
praticado por Hollywood. Longe dos efeitos especiais e do público
infanto-juvenil almejado pela indústria do cinema, Greenaway propunha um cinema
mais próximo das artes plásticas e do teatro, incorporando elementos visuais da
videoarte que floresceu no período. Seus filmes não eram para qualquer público,
e sim para aqueles que freqüentavam o circuito de arte. Neste circuito, conseguiu até alguns sucessos
expressivos que se tornariam cults para toda uma geração, como AFOGANDO EM NÚMEROS (1988), O COZINHEIRO, O LADRÃO, SUA MULHER E O AMANTE (1989), A ÚLTIMA TEMPESTADE (1991) e O LIVRO DE CABECEIRA (1996).
De lá pra cá,
Greenaway caiu numa espécie de ostracismo. De repente, seu cinema contaminado
pelas artes nobres já passou a não interessar mais nem ao público de arte e nem
à crítica. Filmes como 8 ½ MULHERES (1999) foram ignorados e o cineasta
passou a realizar curtas, segmentos de longas, versões de óperas para a TV e
instalações. Enquanto isso, embarcou num projeto ambicioso, que compreendia um
longa de ficção um documentário e uma instalação para o Rijksmuseum de
Amsterdam para comemorar os 400 anos de Rembrandt.
A idéia de Greenaway
era desconstruir e reconstruir em forma de drama uma das obras mais famosas de
Rembrandt, Nachtwacht, ou Ronda Noturna. Pintado em 1642, a obra foi um
projeto de encomenda de uma milícia formada por ricos mercadores de Amsterdam,
mas terminou por representar um ponto de virada na vida do artista, que entrou
em decadência financeira após este trabalho. Greenaway viu ali uma oportunidade
para explorar o fascinante “Ronda Nortuna” em busca de indícios de uma
conspiração.
Na instalação,
que tive a oportunidade de conferir em Amsterdam em 2006, Greenaway utilizava
recursos audiovisuais para promover um clima de paranóia e medo. O trabalho culminava
num clímax grandioso, no qual o realizador transformava o próprio quadro numa
tela de projeção, onde, utilizando-se de efeitos de luz e sonoplastia, era
revelado um assassinato promovido pela milícia e “denunciado” por Rembrandt
através da própria obra.
Já com estas
idéias e conceitos visuais devidamente formatados, era natural que Greenaway se
debruçasse em seguida no longa-metragem de ficção, recontando a história da tal
conspiração e dos motivos que levam ao assassinato e à posterior decadência de
Rembrandt (interpretado por Martin Freeman, que você conhece por papéis
simpáticos em SIMPLESMENTE AMOR e O GUIA DO MOCHILEIRO DAS GALÁXIAS, e que
em breve será Bilbo Bolseiro em O HOBBIT).
Alguns poderiam
até chamar RONDA DA NOITE, o filme, como o CÓDIGO DA VINCI de Greenaway, e
não estaria muito longe da verdade. O realizador mantém-se fiel à sua
assinatura estética e narrativa (os belos enquadramentos e iluminação
reproduzem de forma impressionante a luz e sombra dos quadros de Rembrandt),
sem sacrificar uma certa acessibilidade que tal história permite. Faz assim seu
filme mais palatável para o grande público.
O DVD bem cuidado tecnicamente peca apenas por
não incluir como extra o documentário realizado e apresentado por Greenaway
ainda sobre o tema, REMBRANDT'S J'ACCUSE...! (2008), presente na edição
americana de RONDA DA NOITE.
RONDA DA NOITE
Nightwatching, Holanda/Canadá/Reino
Unido/França/Polônia, 2007
IDIOMA: Inglês 2.0, Português 2.0
LEGENDAS:
Português, Inglês
FORMATO DE TELA: Widescreen Anamórfico 2.39:1
Drama – 2h22 – Cor – Europa Filmes
Direção: Peter Greenaway
Com Martin Freeman, Emily Holmes, Jodhi May, Eva
Birthistle, Toby Jones, Natalie Press
FILME: ***
DVD:
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