Aproveitando o início de mais um Campeonato Brasileiro, que
tal emendar nesse fim de semana um ótimo programa duplo de filmes abordando o
esporte? Inéditos no cinema, o drama MALDITO
FUTEBOL CLUBE e o documentário MARADONA
POR KUSTURICA estão disponíveis nas lojas e locadoras. Tanto um quanto o
outro se concentram mais nos bastidores do futebol do que no gramado, e
retratam a arrogância e o talento que constroem e demolem ídolos.
Lançado simultaneamente em DVD e Blu-ray pela Sony,
MALDITO FUTEBOL CLUBE é a
cinebiografia do técnico mais polêmico e celebrado da história do futebol
inglês, Brian Clough. Revelado no futebol de segunda divisão, Clough rapidamente
escalou a tabela e assumiu o comando do maior time britânico dos anos 1970, o
Leeds United. Foi quando começou sua derrocada, resultante principalmente de
seu egocentrismo e teimosia, além da falta de tato com os dirigentes e a
imprensa (qualquer semelhança com o ex-treinador de nossa seleção é mera
coincidência).
Michael Sheen, um
dos atores ingleses mais ocupados hoje em dia, encarna com brilhantismo o
irascível Clough, e é secundado por talentos como Colm Meaney (como o arquiinimigo de Clough, o também técnico Don
Revie), Jim Broadbent (como um
cartola) e Timothy Spall (que faz o
braço direito do protagonista). O roteiro, que desequilibra a estrutura
convencional ao construir um clímax que foca mais numa vitória pessoal que
profissional, é de Peter Morgan,
indicado ao Oscar por A RAINHA e FROST/NIXON, ambos estrelados por Sheen. O
filme ganha ainda interesse extra por ser dirigido por Tom Hooper, oscarizado este ano por O DISCURSO DO REI. Aqui, o
diretor inglês já mostra sua predileção por enquadramentos estranhos e
assimétricos.
Já MARADONA
POR KUSTURICA, como o título indica, é um retrato muito pessoal do
goleador, cuja vida repleta de altos e baixos parece realmente coisa de filme.
O diretor sérvio Emir Kusturica
(vencedor da Palma de Ouro em Cannes em 1995 pelo delirante UNDERGROUND –
MENTIRAS DE GUERRA) não esconde sua identificação com o jogador. Logo na cena
inicial, Kusturica é apresentado como “o Maradona do cinema”, e diversas vezes
o cineasta afirma que Maradona compartilha várias características com
personagens de filmes seus (cujas cenas são exibidas ao longo do documentário),
algo que, no limite, o jogador acaba se tornando.
Essa idolatria declarada não cega Kusturica para as
contradições de seu ídolo. Maradona, que colaborou ativamente com a produção do
filme, pode ser tanto uma figura genial quanto patética, às vezes na mesma cena
(a tal Igreja Maradoniana como exemplo do ridículo que pode chegar a
idolatria). Kusturica tem clara simpatia por seu posicionamento político: a
partir de imagens do chamado “gol do século” contra a Inglaterra, o cineasta
cria uma animação com recortes a la Terry Gilliam para mostrar Maradona
driblando e ridicularizando Thatcher, Reagan, Blair, Bush Jr. e outros
representantes do que o jogador e atual treinador da seleção argentina
considera o imperialismo ianque. Com tatuagens de Che Guevara e Fidel Castro,
Maradona se posiciona como um bastião da resistência da América Latina e mesmo
da Europa, quando relembra seus tempos de jogador do Nápoles.
No momento mais emocionante do filme, ele canta sua
passagem de ida e volta ao inferno das drogas enquanto imagens caseiras de seu
casamento e de suas filhas são exibidas. Mas como um anjo de pés de barro,
Maradona caiu em desgraça, mas levanta vôo em seguida, e é esta admiração pelo
homem que quer ser (ou acredita ser) Deus que Kusturica compartilha com o
espectador.
Extras
Maradona pode ter poupado a humanidade ao não
aparecer pelado na final da última Copa, mas o DVD de MARADONA POR KUSTURICA não teve o mesmo respeito. Descontando uma
versão em MP4, nem um extra foi incluído na edição. Já MALDITO FUTEBOL CLUBE (tradução ruim, ainda que fiel, de THE DAMNED
UNITED) conta com uma boa coleção de extras. O protagonista Sheen se junta ao
diretor Hooper e ao produtor Andy
Harries numa ótima faixa de comentários em áudio, onde discutem com
sinceridade e inteligência vários tópicos relacionados ao tema e à produção. Cloughisms consiste em quatro das
“entrevistas” com o personagem vistas durante o filme, acompanhadas de
comentários opcionais do diretor. Tom
Perfeito: Os Bastidores de MALDITO FUTEBOL CLUBE é um making of tradicional. Curto (dura pouco mais de 16 minutos), este
aborda a adaptação do livro e a filmagem em si. Criando Clough: Michael Sheen Assume “Old Big Ead”
(10min) fala sobre o processo de criação do personagem, a partir da pesquisa
sobre o verdadeiro Brian Clough, que é o tema central de Relembrando Brian (9min), com vários depoimentos sobre o técnico. O
melhor extra para os fãs de futebol é Um
Jogo em Transformação: Futebol nos Anos 1970 (19min), com entrevistas e
imagens de arquivo recriando as mudanças sofridas pelo futebol inglês no
período. Todos os extras são legendados em português.
MALDITO FUTEBOL CLUBE (BLU-RAY)
The Damned United,
Inglaterra, 2009
IDIOMA: Inglês Dolby TrueHD 5.1, Português Dolby
TrueHD 5.1, Espanhol 5.1, Francês Dolby True HD 5.1
LEGENDAS: Português, Inglês, Espanhol, Francês
FORMATO DE TELA: Widescreen 1.85:1 1080p
Drama – 1h38 – Cor – Sony
Direção: Tom Hooper
Com Michael Sheen, Timothy
Spall, Colm Meaney, Jim Broadbent
FILME: ***
IMAGEM: *****
ÁUDIO: *****
EXTRAS: ****
MARADONA POR KUSTURICA (DVD)
Maradona by Kusturica,
Espanha/França, 2008
IDIOMA: Inglês/Espanhol 2.0
LEGENDAS: Português, Inglês
FORMATO DE TELA: Widescreen Anamórfico 1.78:1
Documentário – 1h33 – Cor – Europa Filmes
Direção: Emir Kusturica
FILME: ***
DVD: ***