A onda
espírita no cinema não dá pista de parar tão cedo. Após a estréia de ALÉM DA VIDA de Clint Eastwood, chegou aos cinemas A MORTE E VIDA DE CHARLIE (CHARLIE ST. CLOUD, 2010),
que dá uma abordagem mais adolescente ao contato mediúnico com espíritos. Quem
vê pessoas mortas, desta vez, é o ídolo teen Zac Efron, aquele que virou
sensação com a franquia HIGH SCHOOL MUSICAL.
Efron
faz o personagem título, um jovem e promissor velejador, com destino garantido
em Yale, que perde seu irmão caçula Sam (o expressivo Charlie Tahan) num
acidente estúpido. Arrasado com a tragédia, desiste de seus intentos e se torna
coveiro de sua cidade natal, para ficar perto de Sam, com quem continua a
interagir, sempre ao pôr do sol. Cinco anos se passam, até que Charlie conhece
Tess (Amanda Crew, que já ganhou experiência com seres do além ao participar de
EVOCANDO ESPÍRITOS), outra velejadora, com planos de dar a
volta ao mundo num veleiro.
Tess
pode representar para Charlie a chance de voltar a se relacionar com os vivos e
retomar sua vida prévia, mas para isto ele tem de abandonar seu compromisso
diário com o irmão. A proposta do roteiro co-escrito por Craig Pearce (que
co-escreveu com Baz Luhrman a trilogia da cortina vermelha, formada por VEM DANÇAR COMIGO, ROMEU + JULIETA e MOULIN ROUGE) é tratar a morte como um
momento de transição, onde tanto aqueles que ficam como aqueles que se vão tem
de lidar com a perda.
É um
tema delicado, com várias chances de descambar para o sentimentalismo, e é
mérito do diretor Burr Steers (revelado com o elogiado A ESTRANHA FAMÍLIA DE IGBY e que rodou com Zac Efron a comédia 17 OUTRA VEZ) que este opte por uma
abordagem romântica com toques de sobrenatural, na linha de GHOST. Se isto faz
com que a narrativa evite dar ênfase aos elementos trágicos – a perda do irmão,
a ausência da mãe (Kim Basinger), a doença terminal do paramédico que salvou
Charlie (Ray Liotta), os amigos mortos no Iraque –, por outro lado
impede também com que o roteiro se aprofunde exatamente naquilo que se propunha
discutir.
Mas, talvez, falar da dor da perda com profundidade nem tenha sido
uma prerrogativa dos realizadores. A fotografia de cartão postal combina bem
mais com o romantismo puro e idealizado que seduz o público da saga CREPÚSCULO. Como funciona nos heróis masculinos desta série, o elemento
sobrenatural em A MORTE E VIDA DE CHARLIE é apenas algo que serve pra
destacar o protagonista dos demais. E suas imagens banhadas por pôr do sol
digital têm a plasticidade fake das paisagens pós-vida de AMOR ALÉM DA VIDA (1988) e UM OLHAR DO PARAÍSO (2009), o que já dá pistas sobre quais são realmente as intenções
dos realizadores.
Zac
Efron, em si, não é ruim. Tem algum carisma, como mostra no musical HAIRSPRAY
e aqui. O problema é que, ao pensar em adolescentes, Hollywood geralmente nivela
por baixo. Não respeitam a inteligência dos jovens, vivos ou mortos.