Estes são tempos
sombrios, não tem como negar, diz o Ministro da Magia (Bill Nighy) logo na cena
de abertura de HARRY POTTER E AS RELÍQUIAS DA MORTE - PARTE I (HARRY POTTER AND THE DEATHLY HALLOWS - PART I, Reino Unido/EUA, 2010). Sombrios, sem
dúvida. Foi-se a segurança de Hogwarts, a escola de bruxaria onde Harry Potter
(Daniel Radcliffe) se refugiava das forças do mal ano após ano. Foi-se também a
segurança provida por Prof. Dumbledore (Michael Gambon), diretor da escola e mentor de Harry, assassinado no filme anterior, vítima da traição de alguém da própria instituição. Cabe a Harry, auxiliado pelos valorosos e fiéis Hermione (Emma Watson) e
Ron Weasley (Rupert Grint), manter-se em fuga constante dos asseclas de
Voldemort, ao mesmo tempo em que procura pelas Horcruxes restantes, objetos
mágicos onde o vilão escondeu partes de sua alma, de forma a permanecer
imortal.
Harry sabe que
encontrar as Horcruxes é a única forma de derrotar definitivamente Voldemort,
mas a busca não será fácil. Além de não conhecer a forma e a localização destes
objetos, o bruxinho é procurado por todos após a tomada do poder por Voldemort e
não pode confiar nem mesmo em alguns de seus aliados. Resta a ele a amizade de
Ron e Hermione. E é esta amizade que será testada nesta primeira metade
cinematográfica do tomo final das aventuras de Harry Potter.
Resultado de uma
opção mais comercial do que propriamente artística, a divisão do último livro da
série de J.K. Rowling em dois filmes não deixa de trazer benefícios potenciais
para a narrativa. Afinal, sobra mais tempo para o desenvolvimento de temas que,
de outra forma, ficariam esmagados em meio aos momentos “grandiosos” que marcam
o clímax da aventura. E são nesses pequenos momentos que o diretor David Yates
encontra a razão de ser desta parte inicial do longo adeus de Potter. Como
aquele belo interlúdio em que Harry consola Hermione ao som de O Children, de
Nick Cave and the Bad Seeds, onde fica claro que, por mais que as circunstâncias
sejam propícias, nada mais do que a pura amizade reside entre os dois. É um
oásis delicado em meio à tensão constante e à falta de perspectiva de vitória.
É bem vindo
também o resgate que Yates faz da abordagem política que marcou HARRY POTTER E A ORDEM DA FÊNIX, sua primeira
incursão na série. O mundo da magia, tal como se encontra dominado por
Voldemort, lembra a Alemanha de Hitler em sua busca pela pureza racial. Na emocionante sequência em que Harry,
Hermione e Ron invadem o Ministério da Magia e mais precisamente o escritório de
Dolores Umbridge (Imelda Staunton), fica claro a visão que o mal, na visão de
Yates, vem do fascismo. Todos os bruxos nos altos cargos se vestem exatamente
como membros da SS e da Gestapo. A imprensa é comprometida e os suspeitos de
atividade subversiva são condenados sem a menor chance de se
defenderem.
Dois novos
colaboradores, ambos egressos de MOÇA COM BRINCO DE PÉROLA, trazem ótimas
contribuições ao trabalho já formidável de uma equipe de altíssimo nível. O
diretor de fotografia português Eduardo Serra encontra tons mais opacos de cores
e sombras para retratar este mundo em transformação, e o compositor francês
Alexandre Desplat pontua a
jornada emocional dos protagonistas com uma partitura musical à altura dos trabalhos de John Williams e Patrick Doyle na série (e superior aos de Nicholas Hooper).
Sendo esta a
primeira parte de uma longa conclusão, é normal que alguns conceitos sejam
lançados no ar sem o devido desenvolvimento. As informações que questionam o
passado e a nobreza de Dumbledore, por exemplo, são citadas, mas deixadas de
lado. Não é desculpável, porém, o descaso de Yates e do roteirista Steve Kloves
com a narrativa. Esta vai num crescendo dramático, sem nunca encontrar um clímax
adequado e emocionante o suficiente que deixe o espectador salivando pela parte
final, a ser lançada em julho de 2011. Ecos do tratamento burocrático que Yates
e Kloves deram ao episódio anterior, O ENIGMA DO PRÍNCIPE, assustam aqui, já que este é exatamente o
momento em que as emoções estão no auge e que, por isto, não deveriam ser
represadas.