Dois
lançamentos da distribuidora independente maranhense Lume Filmes ampliam o
conceito de diversidade sexual. O MARIDO DA CABELEIREIRA e CRASH (não
confundir com o filme homônimo que ganhou o Oscar de Melhor Filme em 2006)
argumentam que o limite do prazer é difuso, não pode ser facilmente catalogado e
que a busca pelo mesmo pode ter conseqüências trágicas.
O MARIDO DA CABELEREIRA causou sensação no circuito de arte brasileiro quando
foi lançado no início dos anos 1990. Foi o filme que tornou conhecido
internacionalmente o nome de seu diretor, Patrice Leconte, na época já um
diretor veterano, com diversas comédias no currículo, além de uma ótima
adaptação de livro de George Simenon, UM HOMEM MEIO ESQUISITO (1989).
Leconte
conta a história de Antoine desde a pré-adolescência, quando este descobre um
novo prazer ao visitar o salão de beleza local, gerido por uma lasciva
cabelereira. Essa associação entre a profissão e o tesão irá acompanhá-lo por
toda a vida. Já adulto (na pele do ótimo Jean Rochefort), Antoine
previsivelmente se apaixona por uma cabeleireira, Mathilde (Anna Galiena), com
quem se casa. Sua vida passa então a gravitar em torno do salão da mesma,
freqüentado por clientes diversos.
Não
é apenas a esposa que excita Antoine: é todo o lugar, com seus aromas e sua
rotina, quebrada de tempos em tempos pelas exóticas canções que Antoine
acompanha numa dança hilária. Leconte quase nunca tira a câmera do local. O
salão é um oásis para o amor de Mathilde e Antoine, um abrigo que os separa do
mundo lá fora e das possibilidades de rompimento e decepção. A fotografia do
craque Eduardo Serra captura essa sensualidade utilizando-se de movimentos
suaves e rompantes cromáticos. Leconte faria depois filmes melhores – A DANÇA DOS DESEJOS, CAINDO NO RIDÍCULO, A VIÚVA DE SAINT-PIERRE, – mas não tão
cultuados quanto este.
CRASH aborda o desejo em outra esfera. Logo na cena inicial no hangar de um aeroporto,
uma loura glacial (Deborah Kara Unger) despe o seio e encosta-se à superfície
gelada de um avião. É esta associação entre sexo e máquina que é o mote do
romance de J. G. Ballard (do autobiográfico IMPÉRIO DO SOL) de onde o cineasta
canadense David Cronenberg extrai um filme extremamente pessoal. O cineasta
sempre se mostrou fascinado pela relação entre o homem e a tecnologia, relação
que transcende a mera troca e chega a uma mutação completa a partir de elementos
orgânicos e metálicos – ver VIDEODROME - A SÍNDROME DO VÍDEO (1983), A MOSCA (1986) e eXistenZ
(1999). O livro de Ballard, sobre pessoas fascinadas com acidentes de carros e
suas conseqüências na carne, cabe como uma luva nas obsessões do diretor.E serve como uma antecipação para o À PROVA DE MORTE do Tarantino, que toma a mesma estrada.
James
Spader (que já havia explorado as perversões de SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE) faz James Ballard, homônimo do próprio
autor, um produtor que causa um acidente de carro que leva à morte um homem
desconhecido. A mulher deste (Holly Hunter), também presente no
acidente, faz parte de um grupo que reencena de forma perigosamente realista
acidentes famosos, como os de James Dean e Jayne Mansfield. O líder do grupo
(Elias Koteas) leva Spader a ingressar num mundo onde carros e corpos se chocam
e se transformam.
As
idéias de Ballard e de Cronenberg parecem sintetizadas na personagem de Rosanna
Arquete, uma vítima de acidente com ambas as pernas cobertas
de pinos e metais, e uma cicatriz que mais parece uma vagina. E, como tal, é
desejada e penetrada. Não é pra qualquer público.
O
MARIDO DA CABELEREIRA
Le
mari de la coiffeuse,
França, 1990
IDIOMA:
Francês 2.0
LEGENDAS:
Português
FORMATO
DE TELA: Widescreen Anamórfico 2.35:1
Romance
– 1h22 – Cor – Lume
Direção:
Patrice Leconte
Com
Jean Rochefort, Anna Galiena, Roland Bertin, Maurice
Chevit
Preço:
39,90
DVD:
**
CRASH
Canadá/Inglaterra,
1996
IDIOMA:
Inglês 2.0
LEGENDAS:
Português
FORMATO
DE TELA: Widescreen Anamórfico 1.78:1
Drama
– 1h40 – Cor – Lume
Direção:
David Cronenberg
Com
James Spader, Holly Hunter, Elias Koteas, Deborah Kara Unger, Rosanna
Arquete
FILME:
****
DVD:
**