Saindo da sessão para imprensa de PREDADORES (PREDATORS, 2010), ouço no
rádio que a Polícia Civil do Rio de Janeiro está investindo mais de sete
milhões de reais em um equipamento que permite com que os policiais
identifiquem os criminosos no escuro, a partir de leitura do calor corporal
destes últimos.
Algo irônico, já que
a franquia PREDADOR foi construída a partir de um conceito muito esperto e
interessante: e se a compulsão humana para a caça predatória não fosse
exclusiva? E se existisse uma raça ainda mais violenta e sedenta de sangue, que
transformasse a nós em caça? PREDADOR, dirigido por John McTiernan em 1987, trazia um grupo de mercenários que, em uma operação na
floresta da Guatemala, é dizimado um a um por uma criatura alienígena. Dotado
de sofisticados equipamentos de camuflagem e o tal sensor de calor, o Predador vem
a nosso planeta de tempos em tempos para praticar o esporte de caça. Quanto
mais perigosa for a presa, melhor e mais estimulante. Daí a opção por
mercenários armados até os dentes, entre eles um invencível Arnold
Schwarzenegger.
Misturando elementos do cinema de ação que chegou ao auge
naquela década, e do qual Schwarzenegger é dos maiores expoentes, com o mix de
terror e ficção científica que deu tão certo em ALIEN e O ENIGMA DE OUTRO MUNDO, PREDADOR de cara deu origem a um monstro memorável e a uma franquia
que se estendeu aos trancos e barrancos pelas décadas seguintes. Sua fraca
continuação, PREDADOR 2 - A CAÇADA CONTINUA, situava a criatura em uma selva
urbana, enquanto as ainda mais fracas duas partes da malfadada franquia amálgama ALIEN VS. PREDADOR os colocava em confronto direto com outro monstro célebre
do cinema moderno. Sem o mesmo pulso do filme original, estes derivados
serviram apenas para banalizar o conceito inicial e diluir o mistério do
personagem.
De forma a contornar a familiaridade que as platéias
modernas têm com o monstro e retomar o senso de perigo e apreensão do filme
original, PREDADORES altera radicalmente o campo de atuação dos monstros. No
lugar de uma ambiente terrestre, a caça – ou seja, um grupo de perigosos
indivíduos – agora é transportada para um planeta desconhecido que funciona
como reserva de caça. Num ambiente estranho que não dominam, resta aos
personagens não apenas sobreviver, mas também escapar.
O diretor Nimród Antal (do eficiente suspense TEMOS VAGAS)
e o produtor Robert Rodriguez primam por manter o
mesmo ritmo contido do cinema fantástico dos anos 1980. A narrativa respira, toma seu tempo, e cria a atmosfera
necessária para que a presença das criaturas invisíveis volte a ser uma ameaça
palpável, e não apenas pretexto para o show de efeitos digitais. Perto do
cinema de ação moderno, cada vez mais grandiloqüente e alucinante, PREDADORES
parece mesmo um alien. Mas os
realizadores mantêm a tendência atual de escalar o elenco contra o tipo padrão.
Nada de brucutus musculosos comandando a ação. Alguns dos papéis principais
foram para magricelos como Adrian Brody e Topher Grace ou pra brasileira Alice
Braga (que vem fazendo expressiva carreira internacional pós-CIDADE DE DEUS).
Não é a toa que os integrantes mais ameaçadores do elenco são os que primeiro
viram churrasco nas mãos dos predadores.
Ainda de positivo, PREDADORES amplia de forma instigante o
conceito original, sugerindo que as maiores barbaridades perpetradas pelos
monstros são lições aprendidas observando o comportamento humano. Tanto aqui
quanto em qualquer parte do universo, os homens continuam sendo os mais letais
dos predadores.