Em AVATAR, James
Cameron usa a fantasia para ilustrar o que seria ver o mundo – com seus
conflitos físicos, emocionais e psicológicos – pelo olhar do outro. Esta
estratégia, intensificada pelo brilhantismo (e gigantismo) da utilização da
tridimensionalidade na narrativa e na construção espacial, foi de encontro aos
anseios do público (o filme já é a segunda maior bilheteria do cinema e
continua rendendo tubos de dinheiro em todo mundo).
Spike Jonze é um realizador que também se mostra fascinado com essa possibilidade de transferência do olhar. Em seus longas anteriores já existia essa discussão, o de assumir o ponto de vista alheio, de forma literal (QUERO SER JOHN MALKOVICH) e figurado (ADAPTAÇÃO).
Em ONDE VIVEM OS MONSTROS (WHERE THE WILD THINGS ARE, EUA, 2009), Jonze segue trajetória
semelhante a de Cameron, se apropriando da fantasia para celebrar a
compreensão. A trama, extraída por Jonze e pelo escritor Dave Eggers do livro
infantil do ilustrador Maurice Sendak, é simples: Max (o expressivo Max
Records) é um garoto solitário que, após uma briga com a mãe divorciada
(Catherine Keener), foge de casa e vai parar numa ilha habitada por monstros.
Que nada mais são do que criaturas tão solitárias e perdidas como o próprio
Max.
A beleza da fantasia de Jonze está em não se limitar ao
rito de passagem comum aos contos de fada. Porque o conflito que o cineasta
estabelece não é apenas o do final da infância, e sim algo que vai acompanhar a
todos – monstros e humanos – até o fim da vida. De cara, Max se identifica com
a energia selvagem de Carol (voz de James Gandolfini), toma seu partido e é declarado rei das criaturas. Sob seu
reinado, as criaturas se entregam às brincadeiras por vezes dolorosas com as
quais as crianças normalmente extravasam sua raiva. O que se tem, no início, é
a fome de destruição como válvula de escape para o tédio, seguida pela
tentativa de construção e organização, a qual Max acredita necessária para se
desenhar limites civilizatórios: uma cidade protegida por um forte. Mas como se
proteger do que vem de dentro?
ONDE VIVEM OS MONSTROS, desta forma, é uma história
de fracasso. E das raras narrativas infanto-juvenis onde não existem vilões.
Porque todos são heróis e vilões ao mesmo tempo, por mais que Max tente
dividi-los em dois grupos distintos, antes de esbarrar em mais uma decepção. É
causando a frustração da qual se vê vítima em casa que Max se coloca no lugar
do outro. E descobre que aqueles com quem se identificava o vêem como ele vê
sua mãe, que depositam nele a mesma expectativa por orientação e segurança,
expectativa essa que invariavelmente termina em desilusão. É, portanto, uma
experiência incômoda para o espectador, onde o único lampejo de final feliz
está numa troca de olhares (e uivos) carregados de melancolia, mas também de inesperada empatia.