Por
um motivo estúpido (esqueceram de colocar Copyright nos créditos do filme, na
época algo obrigatório), o maravilhoso CHARADA (CHARADE, EUA, 1963) caiu prematuramente em domínio
público, o que explica as diversas cópias, todas de qualidade inferior,
disponíveis no mercado. Esta, lançada pela Classicline, pelo menos é em open
matte. Explico: apesar de preencher toda a tela de uma TV convencional (de
formato 4:3), o filme não foi cortado nas laterais, como normalmente se faz
para exibição em TV aberta, e sim acrescido de imagem no topo e na base,
aproveitando uma área do negativo original que é desprezada na cópia de cinema
(que tem janela 1.85:1). Não deixa de ser uma deformação do enquadramento
original do diretor, mas é menos traumático do que eliminar indiscriminadamente
parte da imagem.
Algo
que seria mais criminoso por se tratar de um filme tão especial, onde todos os
envolvidos estavam em estado de graça. CHARADA começa com um corpo sendo
jogado de um trem. Descobre-se que pertencia ao marido de Regina Lampert
(Audrey Hepburn, deslumbrante nos figurinos de Givenchy), e que este era um
criminoso que escondera de seus ex-comparsas uma fortuna roubada durante a
Segunda Guerra. Claro que os bandidos (entre eles os futuros astros James
Coburn e George Kennedy) acham que a viúva ficou com a grana e começam a
assediá-la, de forma progressivamente violenta. Pelo menos ela tem a seu lado o
confiável (será?) Peter Joshua (Cary Grant) e o representante da CIA em Paris,
Hamilton Bartholemew (Walter Matthau).
Praticamente
todo rodado em locações em Paris, com cenas nos Alpes Franceses, CHARADA é
conhecido como o melhor filme de Hitchcock que Hitchcock não fez. Isto
porque, apesar de trazer várias das características das melhores obras do
mestre do suspense, o filme foi dirigido na verdade por Stanley Donen, o genial
criador de musicais célebres como CANTANDO NA CHUVA, CINDERELA EM PARIS e SETE NOIVAS PARA SETE IRMÃOS. Isto explica o toque leve e a elegância na condução da trama que,
mesmo sem deixar de lado o suspense, descamba mais para o humor, de
sofisticação ímpar. É quase como se Donen estivesse zombando justamente das
intrigas internacionais de Hitchcock, alguma delas protagonizadas pelo próprio
Grant, o que faz de sua presença aqui algo nada gratuito.
Com elenco perfeito e timing afinadíssimo, Donen
soube extrair humor até da diferença de idade entre Grant e Hepburn (ela tinha
apenas 33 anos, enquanto ele completara 60 durante as filmagens). A química
entre os astros, aliás, é irretocável. Mesmo originalmente cogitado para ser um
veículo para o casal Warren Beatty e Natalie Wood, fica difícil imaginar CHARADA sem a dupla central. É o que descobriu a duras penas o diretor
Jonathan Demme (O SILÊNCIO DOS INOCENTES), que calhou de refilmar a obra em
2002 (como O SEGREDO DE CHARLIE), resultando num tremendo fracasso de público
e crítica. Até que não foi tão ruim a idéia de Demme em dar uma narrativa a la Nouvelle Vague para a trama (o filme original foi lançado na época em que o
movimento influenciava o mundo inteiro). O problema é que Demme escalou mal
demais os substitutos de Hepburn (Thandie Newton), Matthau (Tim Robbins) e,
principalmente, Grant (o sem graça Mark Wahlberg). Basta se deliciar com as
espontâneas risadas de Audrey Hepburn e a careta impagável que Cary Grant dá no
epílogo para concluir que é assim que se conta uma charada de verdade.