Desde que venceu a Palma de Ouro (derrotando, entre
outros, autores como Lean, Wajda, Pasolini, Frankenheimer, Welles, Losey e o
brasileiro Roberto Santos) com UM HOMEM, UMA MULHER (1966), a crítica não
perdoou mais o cineasta Claude Lelouch. Acusado repetidamente de praticar um
cinema de arte light e popularesco, Lelouch sempre respondeu a estas críticas
com mais provocações (como quando acusa a geração Nouvelle Vague de ensinar
exatamente como não se filmar). A maior delas é, no entanto, o sucesso popular
de seus filmes, principalmente em países como Estados Unidos e Brasil.
Não é sempre que Lelouch experimentou esta boa
acolhida por parte do público. Sua tentativa de continuação do seu maior
sucesso, UM HOMEM, UMA MULHER - 20 ANOS DEPOIS (1986) deu com os burros
n’água. Mas para cada fracasso, Lelouch responde com um filme que não apenas
atinge milhares como também entra para o imaginário popular. Como é o caso
exatamente deste RETRATOS DA VIDA (LES UNS ET LES AUTRES, França, 1981, Classicline).
Trata-se da terceira edição do filme lançada no
Brasil, desta vez em luxuosa embalagem digipak slim, com direito à luva. Sinal
do prestígio que o filme goza por aqui. Trata-se de um empreendimento
ambicioso. “Retratos da Vida” segue por mais de 40 anos a trajetória de várias
famílias, na Rússia, na França, nos EUA e na Alemanha, todas ligadas pela
música e pela dança.
A abertura e o encerramento do filme já são
lendários: o bailarino Jorge Donn interpreta o Bolero de Ravel (que virou hit
mundial após sua utilização no filme) aos pés da Torre Eiffel. A partir daí,
a(s) história(s) começa(m) às vésperas da 2ª Guerra, na União Soviética, onde
uma bailarina (Rita Poelvoorde) se casa com um soldado (novamente Jorge Donn),
pouco antes de este ser convocado para o front russo. Na Alemanha, um talentoso
pianista (Daniel Olbrychski) é cumprimentado pelo Führer em pessoa, antes de se
tornar oficial da SS. Em Paris, uma violinista judia (a futura cineasta Nicole Garcia) se
apaixona por um pianista (Robert Hossein), têm um filho, para logo serem todos
enviados para um campo de concentração. Nos EUA, o big band leader James Caan
ouve o anúncio do início da invasão da Polônia pelos nazistas (que marcaria o
início oficial do conflito).
Logo todas estas trajetórias irão se cruzar ao longo
das três horas de duração do longa (que se estenderiam para mais de quatro
horas em uma posterior edição para a TV em forma de minissérie). Na primeira
metade, Lelouch é muito bem sucedido na forma como narra suas histórias em
ritmo musical, utilizando-se basicamente de movimentos (do corpo e da câmera) e
narrativa visual. Já na segunda metade, que envelheceu mal, o cineasta pesa a
mão com o excesso de sentimentalismo, optando por dar ênfase às tramas mais óbvias
e menos controversas. Exatamente por isso sacrifica logo a mais interessante
delas, a do maestro alemão acusado publicamente de crimes nazistas, trama que
rende a cena mais poderosa do filme, aquela em que o maestro se apresenta para
um auditório vazio.
De qualquer forma, RETRATOS DA VIDA merecia um
tratamento melhor do que ganha em DVD por aqui. Apesar dos cuidados cosméticos
da embalagem e de contar com uma transferência anamórfica, a imagem sofre de
excesso de compressão e, aparentemente, foi retirada de um máster em PAL, o que
resulta numa perda de fidelidade e nitidez. Além da falta de extras, a duração
desta cópia é inferior tanto à versão internacional (184 minutos) quanto à
americana (177 minutos).