Não são muitos os livros ou contos de Stephen King que sobreviveram na transposição para a tela. CARRIE, A ESTRANHA, O ILUMINADO, UM SONHO DE LIBERDADE, CONTA COMIGO, LOUCA OBSESSÃO, talvez outros menos cotados, resistiram à massa de adaptações simplórias graças ao talento dos envolvidos. Um que se destaca entre estas poucas exceções de sucesso é THE DEAD ZONE (de 1983, mas lançado no Brasil apenas em 1987, com o título de A HORA DA ZONA MORTA, para pegar carona na moda dos A HORA DE..., como A HORA DO ESPANTO, A HORA DO PESADELO...). O diretor David Cronenberg deu um tempo nas nojeiras que marcaram a primeira fase de sua carreira e investiu, junto com o roteirista Jeffrey Boam (INDIANA JONES E A ÚLTIMA CRUZADA, VIAGEM INSÓLITA), neste suspense com toques sobrenaturais e fundo político. Em plena Era Reagan, com a ameaça nuclear ainda pairando sobre a humanidade, King escreveu a história de Johnny Smith, um professor que acorda de um coma de seis anos, causado por um acidente de carro. Além de ter de se adaptar com a nova realidade, Smith descobre ainda que adquiriu um estranho poder, o de vislumbrar o futuro ao tocar em pessoas e objetos. As coisas pioram consideravelmente quando ele cumprimenta um candidato ao congresso e vê que sua vitória levará ao fim do mundo. O dilema ético que se segue pode não ser novidade – se tivesse a chance, você mataria Hitler quando criança? – mas tanto King quanto Cronenberg e Boam extraíram daí um drama poderoso em sua simplicidade.
Pois Johnny Smith teria uma nova chance de mudar o futuro na série de TV DEAD ZONE - O VIDENTE, lançada no Brasil em DVD pela Paramount. A idéia de atualizar a trama e expandi-la em um seriado foi do produtor Michael Piller, que fez parte da equipe de criação de alguns derivados de JORNADA NAS ESTRELAS, como DEEP SPACE NINE. Atualizar em termos, já que Piller é bem fiel à idéia proposta por King. Seu maior trabalho se deu da forma inversa do de Cronenberg e Boam. Enquanto estes tiveram de resumir um livro de mais de 320 páginas em um roteiro de 90 páginas, Piller procurou encontrar pistas e possibilidades para ampliar aquele universo além da trama política proposta. Afinal, uma série não tem exatamente um número de episódios determinado em sua gênese, algo que vai depender do sucesso que esta fizer (DEAD ZONE, no caso, durou ao todo seis temporadas).O resultado não é lá inovador. Piller optou por um formato diversas vezes testado na TV, o de mesclar episódios que ajudem a construir a mitologia com outros que são praticamente independentes do todo. Nestes, Smith tem geralmente uma visão de um assassinato ou uma catástrofe logo na introdução, para passar o resto do episódio tentando descobrir como esta visão se concretizará e o que será necessário fazer para impedir que isto aconteça. O surpreendente é que Piller e sua equipe conseguem fazer funcionar este formato, apesar do gosto requentado. Aí entra também a perfeita escalação de Anthony Michael Hall para o papel de Smith (vivido por Christopher Walken no filme de Cronenberg). Hall fez fama nos anos 80 em papéis de nerd como os que viveu em GATINHAS E GATÕES e MULHER NOTA 1000, ambos de John Hughes. O ator envelheceu bem, e ganhou feições mais sérias e graves, sem perder a simpatia (como mostrou recentemente no pequeno papel do apresentador de TV em BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS). Hall encontrou o tom certo para Johnny Smith, o de homem comum, um Zé Ninguém (como sugere o nome do personagem) de uma pequena cidade no interior do Maine, a quem é dada a missão de evitar o fim do mundo. Seu nêmesis é o político corrupto Greg Stillson (Sean Patrick Flanery, o jovem Indiana Jones da extinta série de TV do início dos anos 90).
A terceira e a quarta temporada da série diferem bastante uma da outra em dois pontos. O primeiro deles diz respeito à mitologia em si, que pesou bastante durante toda a terceira temporada, mas que foi resumida ao máximo na quarta, que privilegiou os episódios independentes, provavelmente para facilitar a vida de novos espectadores. Dos onze episódios, apenas três remetem à trama central da série, que liga Stillson ao apocalipse. O segundo ponto é com relação à cosmética. Além de um novo tema musical nos créditos, a série passou a ser realizada a partir de seu quarto ano com câmeras digitais de alta definição, ao contrário da película utilizada nos anos anteriores, que era posteriormente transferida para vídeo para finalização. Para o espectador do DVD, essa é uma boa notícia, já que a imagem, que não tem mais de sofrer com transferência da película para o vídeo, ganha em nitidez e saturação. Mas o aspecto suave que é marca da série permanece presente.
O que não fica claro é o por quê da Paramount ter eliminado todos os extras presentes nas edições americanas. Pelo menos o episódio final da quarta temporada, um especial de Natal que também faz parte da edição gringa, saiu aqui, sabe-se lá porquê, no box da quinta temporada. Com isso, o consumidor brasileiro tem de se contentar com os 12 episódios da terceira e apenas 11 da quarta temporada, que pelo menos garantem a diversão daqueles que ousarem vislumbrar o futuro pelos olhos de Smith.
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