Um crítico britânico definiu com perfeição INDIANA JONES E O REINO DA CAVEIRA DE CRISTAL (INDIANA JONES AND THE KINGDOM OF THE CRYSTAL SKULL, EUA, 2008, Paramount), o novo tomo da série cinematográfica do herói criado por George Lucas e Steven Spielberg: parece mais um parque temático do herói do que um filme de verdade. Não tem como discordar. Apesar de todos os elementos que fizeram da série um ícone pop estarem presentes, falta a liga que faz do conjunto grande cinema. Ou seja, é melhor em partes do que no todo.
Como já tinha apontado em minha resenha da época de lançamento nos cinemas, nem por isso INDIANA JONES E O REINO DA CAVEIRA DE CRISTAL chega a ser ruim, muito pelo contrário. Começando pela presença de Harrison Ford no papel principal, a empreitada oferece prazeres suficientes para gastar duas horas no cinema ou em frente a sua TV. Ford, que já foi considerado o “astro do século”, recupera algo de sua majestade no papel do arqueólogo, após uma década de papéis anêmicos. É perceptível o quanto o ator se diverte e isto se reflete nos pequenos gestos e reações que incorpora ao personagem. E é por conta dele que o espectador quase se esquece que tudo mais tem gosto requentado.
Spielberg não nega, num dos documentários que acompanham este excelente Blu-ray duplo lançado pela Paramount (foram lançadas também edições em DVD, tanto dupla quanto simples, a um preço mais em conta), que este foi um projeto ditado pela vontade do público em reencontrar o herói no cinema. Ou seja, não tem nada de pessoal e isto se reflete na condução da narrativa. Está lá a criatividade de Spielberg na criação de planos e gags visuais, mas falta emoção e aquela sensação de deslumbramento infantil que o cineasta despertava no público na fase áurea de sua carreira.
A trama também avança por outras pradarias, as da ficção científica, ao contrário dos filmes anteriores, calcados nos seriados de aventura dos anos 1930. Foi uma idéia de George Lucas que Spielberg nunca chegou a abraçar de fato, como o cineasta deixa claro nos extras. Mas pelo menos serviu pra homenagear o cinema hollywoodiano dos anos 50. O espectador mais atento perceberá referências a O SELVAGEM, OS DEZ MANDAMENTOS, A SELVA NUA, A INVASÃO DOS DISCOS VOADORES e diversas outras pérolas do período. Desta vez, Indiana Jones se envolve numa missão de espiões russos comandados pela maléfica Irina Spalko (Cate Blanchett, prestando homenagem a Greta Garbo e Marlene Dietrich), que tem o objetivo de encontrar a relíquia do título. Esta pode levá-los a descobrir vestígios de uma civilização perdida, dotada de uma incrível fonte de poder, que pode desequilibrar os rumos da Guerra Fria.
Claro que isto é pretexto para uma série de cenas de ação espetaculares, como uma perseguição de carro em meio à selva amazônica (filmada, na verdade, no Havaí) e para revelações nem um pouco surpreendentes com relação à descendência de Indy. É neste aspecto que a estrutura se assemelha mais a de um parque temático que a de um filme. Uma seqüência não tem necessariamente conexão com a anterior ou com a próxima, e parece pretexto para inserir o máximo de referências à própria série. O humor, sempre um dos trunfos da franquia, parece meio fora de lugar.
Pra compensar, o orçamento milionário se traduz em todos os valores de produção aos quais Spielberg e Lucas nos deixaram acostumados. Estes são devidamente reproduzidos nesta tecnicamente perfeita edição em BD. A fotografia do grande Janusz Kaminski, que desde A LISTA DE SCHINDLER é o homem de confiança de Spielberg, mantém o aspecto mais clássico e suave do tratamento dado pelo saudoso Douglas Slocombe aos filmes anteriores, adicionando alguns toques típicos de Kaminski, como na maior densidade da imagem e no uso de focos de luz. Isto resulta num visual bem cinematográfico, de cores vibrantes e ótima nitidez, ainda que esta seja propositadamente aquém do que as produções atuais acostumaram o público a esperar. O áudio sem perdas segue a mesma filosofia, com boa separação de canais e fidelidade, mas não tão agressivo quanto os modernos filmes de ação, mais uma iniciativa de Spielberg em dar uma aura old school ao seu filme.
Outros aspectos da produção, como a criação dos objetos de cena e dos efeitos são destrinchados nos diversos documentários que acompanham o BD, todos eles legendados e em HD. Obviamente, os extras evitam qualquer ponto de discórdia, se concentrando na maneira festiva com a qual cada membro do elenco e da equipe encarou este retorno à série. Spielberg e sua turma estão decididamente jogando para o público o que este (supostamente) quer, mas se esquece do fato de que tudo que o espectador deseja é um pouco da magia de outrora.