Lembre-se bem: é Coraline e não Caroline o nome da protagonista da animação em cartaz nos cinemas de todo Brasil. Pronunciar corretamente seu nome é importante para não desagradar a garota, que já sofre com a falta de atenção dos pais e dos adultos em geral. Ninguém parece perceber as necessidades de Coraline, sua imaginação desenfreada, sua curiosidade sem limites. Recém-instalada no apartamento do segundo andar de uma velha casa de três pavimentos, juntamente com seus pais viciados em trabalho, Coraline é solitária, o que compensa com uma inquietude duplicada, e uma forma questionadora de ver o mundo, com suas regras e convenções, característica da infância.
É em suas explorações pelo novo lar e seus arredores que Coraline descobre uma porta trancada embaixo do papel de parede da sala de estar, que parece não dar pra lugar nenhum. Ao abri-la, dá de cara com uma parede de tijolos. Que, mal sabe Coraline, desaparece durante a noite abrindo caminho para uma realidade alternativa, onde sua “outra” família lhe aguarda oferecendo tudo aquilo que a menina anseia de seus pais verdadeiros: carinho, amor e uma alimentação decente (e nada daqueles pratos congelados). Intrigada com os olhos de botão de seus pais alternativos, a garota diz que não sabia ter “outra mãe”. Todo mundo tem outra mãe, querida, é a resposta desta outra mãe, que num primeiro momento, servida juntamente com quitutes e brinquedos que ganham vida, é o suficiente para que sua sede de curiosidade seja saciada. Se a esmola é muita, o santo desconfia, já dizia o ditado, e o que a “outra mãe” quer de verdade a menina não está tão apta a conceder.
CORALINE E O MUNDO SECRETO (CORALINE, EUA, 2009) é a adaptação para o cinema do livro de Neil Gaiman, lançado no Brasil pela Editora Conrad. Gaiman é um nome badalado entre os fãs de quadrinhos e literatura fantástica, graças a obras revolucionárias como as HQ SANDMAN, OS LIVROS DA MAGIA e MORTE - O PREÇO DA VIDA, além dos romances DEUSES AMERICANOS e BELAS MALDIÇÕES. Com estilo distanciado e não raro irônico, o autor costuma misturar influências que vão da filosofia, dos contos de fada e das mitologias gregas e nórdicas. Mesmo quando Gaiman fala diretamente com as crianças, como em CORALINE, nunca é condescendente. É por isso que sua obra transita sem dificuldade entre o público infantil e o adulto. Por outro lado, esta característica a torna difícil de adaptar para o cinema, que trabalha com conceitos mais fechados.
Nas mãos do cineasta e animador Henry Selick, CORALINE completa este trâmite midiático sem perder nada de sua essência. Pelo contrário, é extremamente fiel à sua fonte, de onde reproduz passagens e diálogos inteiros. A maior contribuição de Selick é a importância que este dá para um personagem inédito no livro, o do garoto Wylbie, vizinho da protagonista. Wylbie é adorável, e serve como interlocutor para a Coraline fílmica expor suas inseguranças e intenções. A grande sacada de Selick, porém, foi realizar o filme utilizando a anacrônica técnica de animação chamada stop-motion, que consiste em animar quadro a quadro bonecos e objetos tridimensionais. Selick é um craque nesta técnica. É dele a direção (que muitos creditam a Tim Burton, na verdade apenas produtor e argumentista) de um clássico moderno do gênero, O ESTRANHO MUNDO DE JACK. Se as influências de Selick, também roteirista e diretor de arte, em CORALINE passam por Burton, também lembram outros lendários realizadores, como o tcheco Jan Svankmajer e o norte-americano Ray Harryhausen.
O excepcional trabalho de animação em CORALINE toma o cuidado de nunca se sobrepor ao drama central de sua protagonista, que aprende a lidar com a tentação e a insatisfação, completando a transição para o mundo adulto, uma jornada de amadurecimento comum aos contos de fada. Neil Gaiman já enveredara pelo cinema antes, com o roteiro que escreveu para MÁSCARA DA ILUSÃO, com o qual CORALINE guarda muitas semelhanças, a maior delas sendo a forma como a curiosidade, a imaginação e a moral tornam-se as armas mais eficazes contra a apatia e a incompreensão.