REBOBINE, POR FAVOR, último filme do francês Michel Gondry, aportou no Brasil em dupla manifestação (filme + instalação). Gondry faz parte da turma de realizadores escolados na publicidade, na videoarte e no videoclipe que tomou de assalto o cinema no final dos anos 1990 e no início dessa década. Turma da qual faz parte também Spike Jonze (QUERO SER JOHN MALKOVICH), Mark Romanek (RETRATO DE UMA OBSESSÃO), Anton Corbjin (CONTROLE) e Jonathan Glazer (SEXY BEAST).
Dentre os colegas, Gondry sempre foi o mais gaiato. Ex-baterista do grupo pop francês Oui Oui, começou a carreira fazendo clipes da própria banda, até chamar a atenção de artistas como Björk, Massive Attack e Rolling Stones, para quem realizou alguns dos vídeos musicais mais influentes da atualidade. O que marca o trabalho do realizador é uma estranha unidade: o gosto por temas bizarros, a irreverência narrativa, a falta de distinção entre tecnologias analógicas e digitais.
REBOBINE, POR FAVOR é o filme mais caloroso do diretor, que também escreveu o roteiro. A trama se passa em uma pequena locadora de VHS que pena para não ser extinta pela dominação do DVD (ambientação e tema lembram também a loja de LPs do nacional DURVAL DISCOS). A locadora é sustentada por alguns poucos clientes que ainda não embarcaram no disquinho digital, como é o caso da Sra. Falewicz (Mia Farrow). Mas isso é apenas o começo. Certo dia, o proprietário (Danny Glover) resolve fazer uma viagem e deixa a locadora aos cuidados de seu atrapalhado funcionário Mike (Mos Def, de O GUIA DO MOCHILEIRO DAS GALÁXIAS). O filme ganha toques surrealistas bem ao gosto de seu realizador quando o anárquico Jerry (Jack Black), após um estranho acidente, entra no local e desmagnetiza todas as fitas. Para evitar que os clientes percebam o dano, Mike e Jerry resolvem reencenar todos os filmes destruídos, em produções de fundo de quintal realizadas com uma câmera de vídeo. Acontece então o absurdo maior: as produções caseiras de Mike e Jerry viram sensação local, a ponto de irritar os grandes estúdios, representados pela executiva vivida por Sigourney Weaver.
O grande chamariz de REBOBINE, POR FAVOR é ver cenas de filmes famosos, como KING KONG, OS CAÇA-FANTASMAS e CONDUZINDO MISS DAISY, refeitas de forma artesanal pelos empolgados cineastas amadores, que acabam por envolver toda a comunidade na empreitada. Mas Gondry aproveita para retomar alguns de seus temas prediletos, como a memória (mote de seu BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS, que lhe deu o Oscar de Roteiro Original) e a reprodutibilidade da arte moderna. Para manter a autenticidade, Gondry pediu com que os atores não revissem os filmes que seriam reencenados, e os refizessem somente a partir das recordações pessoais. O resultado é hilário e significativo. O cineasta aproveita também para realçar a singularidade da arte perante a indústria cultural e sua capacidade infinita de reprodução, que é característica intrínseca do próprio cinema. Em clipes realizados para Kylie Minogue e The Chemical Brothers, Gondry já mostrara interesse pela multiplicação das imagens. Em REBOBINE, POR FAVOR, defende sua customização.