REBOBINE, POR FAVOR

by Kas 30. January 2009 10:05

REBOBINE, POR FAVOR, último filme do francês Michel Gondry, aportou no Brasil em dupla manifestação (filme + instalação). Gondry faz parte da turma de realizadores escolados na publicidade, na videoarte e no videoclipe que tomou de assalto o cinema no final dos anos 1990 e no início dessa década. Turma da qual faz parte também Spike Jonze (QUERO SER JOHN MALKOVICH), Mark Romanek (RETRATO DE UMA OBSESSÃO), Anton Corbjin (CONTROLE) e Jonathan Glazer (SEXY BEAST).

Dentre os colegas, Gondry sempre foi o mais gaiato. Ex-baterista do grupo pop francês Oui Oui, começou a carreira fazendo clipes da própria banda, até chamar a atenção de artistas como Björk, Massive Attack  e Rolling Stones, para quem realizou alguns dos vídeos musicais mais influentes da atualidade. O que marca o trabalho do realizador é uma estranha unidade:  o gosto por temas bizarros, a irreverência narrativa, a falta de distinção entre tecnologias analógicas e digitais.

REBOBINE, POR FAVOR é o filme mais caloroso do diretor, que também escreveu o roteiro. A trama se passa em uma pequena locadora de VHS que pena para não ser extinta pela dominação do DVD (ambientação e tema lembram também a loja de LPs do nacional DURVAL DISCOS). A locadora é sustentada por alguns poucos clientes que ainda não embarcaram no disquinho digital, como é o caso da Sra. Falewicz (Mia Farrow). Mas isso é apenas o começo. Certo dia, o proprietário (Danny Glover) resolve fazer uma viagem e deixa a locadora aos cuidados de seu atrapalhado funcionário Mike (Mos Def, de O GUIA DO MOCHILEIRO DAS GALÁXIAS). O filme ganha toques surrealistas bem ao gosto de seu realizador quando o anárquico Jerry (Jack Black), após um estranho acidente,  entra no local e desmagnetiza todas as fitas. Para evitar que os clientes percebam o dano, Mike e Jerry resolvem reencenar todos os filmes destruídos, em produções de fundo de quintal realizadas com uma câmera de vídeo. Acontece então o absurdo maior: as produções caseiras de Mike e Jerry viram sensação local, a ponto de irritar os grandes estúdios, representados pela executiva vivida por Sigourney Weaver.

O grande chamariz de REBOBINE, POR FAVOR é ver cenas de filmes famosos, como KING KONG, OS CAÇA-FANTASMAS e CONDUZINDO MISS DAISY, refeitas de forma artesanal pelos empolgados cineastas amadores, que acabam por envolver toda a comunidade na empreitada. Mas Gondry aproveita para retomar alguns de seus temas prediletos, como a memória (mote de seu BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS, que lhe deu o Oscar de Roteiro Original) e a reprodutibilidade da arte moderna. Para manter a autenticidade, Gondry pediu com que os atores não revissem os filmes que seriam reencenados, e os refizessem somente a partir das recordações pessoais. O resultado é hilário e significativo. O cineasta aproveita também para realçar a singularidade da arte perante a indústria cultural e sua capacidade infinita de reprodução, que é característica intrínseca do próprio cinema. Em clipes realizados para Kylie Minogue e The Chemical Brothers, Gondry já mostrara interesse pela multiplicação das imagens. Em REBOBINE, POR FAVOR, defende sua customização.  

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Cinema

PACTO DE SANGUE / A PRIMEIRA PÁGINA

by Kas 29. January 2009 10:29

 


Dois grandes títulos que confirmam – como se precisasse – a genialidade de Billy Wilder. Apesar da série de obras-primas no currículo, Wilder às vezes é esquecido do rol de grandes cineastas simplesmente por esta facilidade com que transita pelos mais diversos gêneros, algo que acontece também com outro dos grandes, Howard Hawks. Mas, como estes dois lançamentos deixam transparecer, o estilo de Wilder sobrevive a esta versatilidade e está em sua maneira bem particular de ver o mundo. Alguns chamam isto de cinismo, mas ocorre que, por trás das camadas de ironia, Wilder é um romântico. Que outro modo pode-se explicar a hesitação de Barbara Stanwick em completar o crime perfeito em PACTO DE SANGUE (DOUBLE INDEMNITY, EUA, 1944, Universal/Versátil) e o caso de amor entre Jack Lemmon e Walter Matthau em A PRIMEIRA PÁGINA (THE FRONT PAGE, EUA, 1974, Universal/Versátil)?

 

O primeiro, aliás, é um marco do que se convencionou chamar de film noir, estabelecendo várias das características do estilo, considerado no documentário que acompanha esta edição de única vanguarda artística americana. O termo noir foi aplicado por um crítico francês para designar uma série de filmes baseados no sórdido universo da literatura barata dos anos 30 (as pulp fiction), que geralmente abordavam crimes passionais, assassinato, adultério e sedução. Surgidos após o ataque a Pearl Harbor e a entrada dos EUA na Segunda Guerra, estes filmes exploravam a face nada agradável do ser humano e da América, e batia de frente com a censura auto-imposta pelos estúdios. Desta cepa, surgiram obras marcantes como RELÍQUIA MACABRA (ou O FALCÃO MALTÊS, como ficou conhecido em vídeo), O DESTINO BATE À SUA PORTA, CONFISSÃO, À BEIRA DO ABISMO e PACTO DE SANGUE. Wilder, um conhecido roteirista que acabara de se tornar diretor de filmes como A INCRÍVEL SUZANA e CINCO COVAS NO EGITO, escolheu a obra original de James M. Cain como base para aquele filme que lhe alçaria ao panteão dos maiores diretores de Hollywood, tal qual Alfred Hitchcock, em cuja obra PACTO DE SANGUE se inspira. Chamou para desenvolver o roteiro outro grande escritor da literatura policial, Raymond Chandler, criador do célebre detetive Philip Marlowe. Apesar dos gênios de Wilder e Chandler não se bicarem, o resultado é impecável, com diálogos burilados e reviravoltas surpreendentes. A escolha do elenco também não poderia ser mais perfeita. Stanwick na época era das maiores estrelas de Hollywood e hesitou em aceitar o papel de assassina, até que Wilder lhe encurralou com a pergunta Você é uma atriz ou uma rata?. Já Fred MacMurray, um ator mediano de comédias, tem o melhor papel de sua carreira como o corretor de seguros que se deixa envolver pela teia ardilosa da esposa insatisfeita que deseja eliminar o marido. Está tudo lá: a femme fatale, a narração em off, os personagens dúbios, os diálogos de duplo sentido, a tensão sexual. Enfim, as características que definem o film noir e que de tanto repetidas e citadas, terminaram por se tornar uma paródia (lembram-se de CLIENTE MORTO NÃO PAGA?). Ver PACTO DE SANGUE é essencial para recuperar a visão original de um dos estilos mais saborosos e influentes da produção americana.

 

Já A PRIMEIRA PÁGINA é a terceira versão para as telas da peça de Ben Hecht e Charles MacArthur. As adaptações anteriores, ÚLTIMA HORA (1931) de Lewis Milestone e JEJUM DE AMOR (1940) de Howard Hawks, são formidáveis, e só mesmo o talento inesgotável de Wilder para justificar mais uma versão. O roteiro de Wilder e seu parceiro habitual, I.A.L. Diamond, é ferino e recupera o sexo original do repórter policial, transformado em mulher por Hawks para acentuar a tensão sexual com seu editor. Só que Wilder não se importa se algo de suspeito se insinue na relação entre o repórter vivido por Lemmon e o editor encarnado por Matthau, algo que supere o aspecto profissional e a amizade. Afinal, um dos maiores clássicos do diretor, a comédia QUANTO MAIS QUENTE MELHOR, terminava com o milionário descobrindo que a mulher que ama é na verdade um homem (de novo Lemmon), e aceitando conformadamente a situação: Ninguém é perfeito, concluía ele. Wilder utiliza também sua prévia experiência como jornalista para demolir as noções de ética e altruísmo que envolve a profissão. Os jornalistas de Wilder não têm ética nem entre eles, quanto mais com relação à sociedade. O que importa é quem ganha o jogo, porque é isso que é, uma brincadeira entre adultos que se recusam a abandonar o playground e assumir suas responsabilidades, como o casamento entre Lemmon e a novata Susan Sarandon. Mas o jornalismo para o cineasta não tem ética porque reflete uma sociedade que também não tem. As autoridades policiais e políticas pra Wilder participam e alimentam esse jogo, só o recusando quando este fere seus interesses. Mas longe de Wilder querer simplesmente denunciar algo que fez com muito mais virulência em A MONTANHA DOS SETE ABUTRES. O negócio aqui é divertir e isso o mestre conhece como poucos. A PRIMEIRA PÁGINA é hilariante e mostra que o sujeito não perdeu a verve ao longo dos anos (tinha 68 deles quando rodou o filme).

 

Frutos da parceira entre a Versátil com a Universal, as edições se privilegiam por usar os masters oficiais, resultando em ótimas cópias. A PRIMEIRA PÁGINA não tem extras, enquanto PACTO DE SANGUE traz o trailer e o excelente documentário que acompanha a edição americana, com entrevistas com o cineasta William Friedkin, os diretores de fotografia Caleb Deschanel e Owen Roizman, além de pesquisadores e críticos de cinema, todos destrinchando a realização e o brilhantismo desta obra-prima. Pena que os comentários em áudio presentes na mesma edição americana ficaram de fora da nacional.

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DVD

PÂNICO EM ALTO-MAR

by Kas 29. January 2009 08:29

Três casais ficam à deriva em alto-mar porque se esqueceram de descer a escada do iate antes de pularem na água.

Lendo a sinopse acima, você pode esperar tanto um exercício de tensão quanto uma série de atos estúpidos, e no final acaba tendo ambos, em doses desiguais. Vendido internacionalmente como a continuação de MAR ABERTO, um sucesso surpresa sobre um casal que fica perdido em alto-mar, esta produção alemã falada em inglês teve na verdade seu roteiro escrito antes.

PÂNICO EM ALTO-MAR (ADRIFT, Alemanha, 2006, Europa Filmes) afirma ser baseado em fatos reais, o que é questionável. De qualquer forma, para uma produção realizada diretamente para o mercado de vídeo, até que o diretor Hans Horn consegue manter um ritmo adequado, mesmo sem nunca alcançar a tensão possibilitada pela premissa e utilizando-se de alguns elementos forçados, como um dos personagens ser apunhalado “por acidente”, como se não bastasse a gravidade da situação do grupo. O final pode ser tanto interpretado como “aberto” ou “mal feito” mesmo, dependendo do seu bom humor. O nome mais famoso do elenco é o de Eric Dane, que fez o melhor amigo de Owen Wilson em MARLEY & EU, o Homem Múltiplo de X-MEN - O CONFRONTO FINAL e participações nas séries GREY'S ANATOMY e CHARMED.

Edição traz making of, trailer e versão MP4.

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DVD

NOIVAS

by Kas 29. January 2009 04:21

Desde que realizou GANGUES DE NOVA YORK em 2002, Martin Scorsese parece fascinado pelo tema dos imigrantes que construíram a América. Aquele filme trazia uma seqüência extraordinária que mostrava o desembarque dos irlandeses na Ellis Island e o imediato alistamento dos mesmos na guerra civil que assolava o país. Em 2007, o cineasta deu seu aval ao italiano NOVO MUNDO, de Emanuele Crialese, que retratava a viagem dos sicilianos para os EUA e os procedimentos de admissão no país. Entre um e outro, Scorsese produziu este NOIVAS (NYFES, Grécia, 2004, Europa Filmes). Como o próprio título diz, esta produção grega fala sobre as noivas encomendadas na Grécia, Turquia e Rússia para atender a demanda de imigrantes nos EUA. Esta demanda criava um verdadeiro comércio, onde as noivas eram negociadas como mercadorias, quando não usadas para prostituição.

O cineasta ateniense Pantelis Voulgaris, premiado em Berlim e Veneza, usa o tema como pano de fundo para um melodrama romântico sobre uma costureira grega, prometida a um comerciante pátrio que mora em Nova York, que se apaixona na viagem de navio para a América por um fotógrafo americano (Damian Lewis, da série LIFE). O problema é que Voulgaris cede a uma simplificação moral que enfraquece o drama e a denúncia. Seus personagens são vítimas ou algozes, bons ou maus, sem meio termo. Este maniqueísmo pode funcionar dentro dos limites do melodrama, mas é por demais ingênuo pra dar conta do contexto histórico. Vencedor de cinco prêmios no Festival de Tessalônica.

Cópia em widescreen, mas não-anamórfico, e sem extras.

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DVD

JOSÉ PADILHA SAI DA TROPA E ENTRA NA ELITE

by Kas 27. January 2009 11:24

José Padilha acaba de assinar com a Universal pra dirigir SIGMA PROTOCOL, um thriller baseado no último romance escrito por Robert Ludlum antes de sua morte. A Universal pretende dar início a uma nova franquia de ação, aos moldes de Jason Bourne, também criado por Ludlum. O roteiro foi escrito por Matt Holloway e Art Marcum, a dupla de HOMEM DE FERRO, e envolve conspiração nazista e Segunda Guerra. Esta é a grande chance de Padilha no mercado americano, já que franquias são o sonho de todo ator e diretor que pretende se dar bem em Hollywood. 

Curiosamente, revi ontem O DOCUMENTO HOLCROFT, outra adaptação de Ludlum (pelas mãos de John Frankenheimer), com Michael Caine envolvido em um plano diabólico que tem origem nos últimos dias do nazismo e que pretende inaugurar o 4o Reich. Vale a pena rastrear este filme, que saiu em DVD no Brasil pela extinta Aurora.

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Cinema

SOB O MANTO TENEBROSO

by Kas 27. January 2009 10:54

Alan Ladd (o imortal Shane de OS BRUTOS TAMBÉM AMAM) já desfrutava da pincha de astro da Paramount quando fez esse SOB O MANTO TENEBROSO (O.S.S., EUA, 1946, Classicline), um thriller passado na França ocupada pelos nazistas. Ladd interpreta um espião que se apaixona por sua colega, vivida por Geraldine Fitzgerald, de O MORRO DOS VENTOS UIVANTES e VITÓRIA AMARGA, enquanto tentam conseguir as informações necessárias para destruir o sistema ferroviário utilizado pelos alemães na Normandia. No fundo, é um melodrama clássico, quando o protagonista tem de decidir se salva a mocinha ou se cumpre sua missão.

Curiosamente, versa sobre a criação da CIA, claro que de uma forma bem mais fantasiosa e patriota que a mostrada por Robert De Niro em O BOM PASTOR. Aqui, o mundo dos espiões recebe sua cota de glamour, cortesia do roteirista e produtor Richard Mainbaum, que escreveria 13 filmes da série James Bond. O competente diretor Irving Pichel estreou no cinema comandando, ao lado de Ernest B. Schoedsack (da primeira versão de KING KONG), a lendária aventura ZAROFF - O CAÇADOR DE VIDAS em 1932.

Cópia razoável e sem extras.

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DVD - Resenhas

PELA VIDA DE UM AMIGO

by Kas 27. January 2009 10:45

Dois americanos ficam no dilema de voltar ou não à Malásia para assumirem sua culpa no porte de drogas. De outra forma, um amigo em comum capturado pelas autoridades daquele país será enforcado pelo crime.

Mais um drama sobre americanos que tratam países de Terceiro Mundo como quintal dos EUA, onde drogas e turismo sexual são a tônica dominante. Pelo menos até que estes mesmos países mostrem suas garras. Ou seja, toda uma tradição que vai de O EXPRESSO DA MEIA-NOITE de Alan Parker até o recente O ALBERGUE de Eli Roth, que ao condenarem essa equivocada concepção só fazem reforçar os mesmos preconceitos.

Este PELA VIDA DE UM AMIGO (RETURN TO PARADISE, EUA, 1998, Universal) segue a mesma linha, mas pelo menos se preocupa em dar voz aos princípios dos mesmos países detratados, no caso, a Malásia. Até mesmo articula um inimigo ainda maior, a própria mídia. Não que faça muita diferença, já que o preconceito ainda se faz presente. Pelo menos o diretor Joseph Ruben sabe filmar e dá particular atenção às ambientações, sejam estas em Nova York ou em Penang. Extrai ainda interpretações honestas de Vince Vaughn (antes deste virar mais um comediante de plantão), Anne Heche e Joaquin Phoenix. Repare na pequena participação, como noiva de um dos amigos, de Vera Farmiga, que chamaria posteriormente a atenção da crítica em OS INFILTRADOS de Scorsese.

Boa cópia, mas sem extras.

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DVD - Resenhas

FÉRIAS DE NATAL

by Kas 25. January 2009 17:55

Não se deixa enganar pela capinha, pelo título e pela presença de Deanna Durbin e Gene Kelly, que prometem uma história leve, edificante e cheia de canções natalinas. FÉRIAS DE NATAL (CHRISTIMAS HOLIDAY, EUA, 1944, Classicline), do diretor alemão Robert Siodmak (SILÊNCIO NAS TREVAS, BAIXEZA) é na verdade um drama noir e pesado, que traz os astros nos papéis mais sombrios de suas carreiras.

Durbin era na época a estrelinha da Universal, protagonista de vários musicais românticos e inofensivos, e faz aqui uma mulher desiludida e amarga, que teve seu marido (Kelly) preso por assassinato, e que conhece, na véspera de Natal, militar (Dean Harens) dispensado pela noiva. Não é difícil imaginar a comoção que deve ter causado no público sua primeira cena, cantando num cabaré, com olheiras e tudo mais. Já Kelly está igualmente distante da persona dançante e irresistível que marcaria sua carreira. Siodmak capricha na atmosfera decadente.

Cópia decente, sem extras.

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DVD

JANIS E JOHN

by Kas 24. January 2009 04:53

O maior atrativo deste JANIS E JOHN (JANIS ET JOHN, França/Espanha, 2003, Europa Filmes), uma comédia francesa inédita nos cinemas brasileiros, é ver Christopher Lambert num papel bem incomum, o do primo ex-hippie que, um dia, chapado de LSD, encontra Janis Joplin e John Lennon num banheiro. É nele que o corretor vivido por Sergi Lopez (de O LABIRINTO DO FAUNO) tenta aplicar um golpe, fazendo-o acreditar que Lennon e Joplin estão vivos e assim ficar com o dinheiro de uma herança. Para isso, disfarça sua própria mulher (Marie Trintignant, que morreria tragicamente algum tempo depois) de Janis e contrata um ator desempregado (François Cluzet) pra encarnar o ex-Beatle, o que ambos acabam fazendo até bem demais.

É uma comédia inofensiva e previsível, não particularmente brilhante. Mas vale pela presença dos atores, incluindo o veterano Jean-Louis Trintignant, pai de Marie. Sem extras.

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DVD

AUSTRÁLIA

by Kas 23. January 2009 12:28

Como o cinema de seu colega neozelandês Vincent Ward, os filmes de Baz Luhrmann trafegam entre o brega e o sublime. Em AUSTRÁLIA, o épico romântico que o diretor australiano demorou sete anos para levantar, esta transição às vezes se faz dentro do mesmo espaço cênico. É uma saga grande como o país que lhe dá nome, mas simples como a história de amor que conduzia seu MOULIN ROUGE (2001).

Nicole Kidman, que já cantou seu amor para o diretor como a cortesão do cabaré parisiense, faz Lady Sarah Ashley, uma inglesa de berço nobre que embarca para a Austrália em busca de seu marido, que está ameaçado de perder toda sua propriedade e fortuna para o poderoso barão do gado King Carney (o excelente Bryan Brown). Chegando em sua fazenda, sugestivamente chamada de Faraway Downs, Sarah encontra seu esposo assassinado, mas o consolo logo vem na figura do Capataz (Hugh Jackman), a heróica figura sem nome que é uma súmula de todas as características rústicas e viris associadas aos protagonistas de novelas de banca estilo Sabrina ou Bianca.

Este é o mundo de Baz Lurhmann. Um mundo construído a partir do mais vigoroso cinema clássico hollywoodiano quanto da mais estapafúrdia fotonovela. AUSTRÁLIA fascina por não distinguir entre as fontes de inspiração que formam o repertório de seu diretor e roteirista. Ao contrário, abraça a todas elas com tanto vigor, paixão e senso de espetáculo que uma simples noção de bom gosto parece deselegante perante tamanha empreitada.

Os valores de produção são imensos – fotografia, figurinos e efeitos visuais possuem o fascínio que se espera – e heróis são heróis e vilões são vilões, nenhum deles maior que o traiçoeiro Neil Fletcher (David Wenham, que já esteve do lado dos justos em O SENHOR DOS ANÉIS, 300 e VAN HELSING). Um pingo de crítica social também procede na figura do garoto mestiço Nullah (Brandon Walters), mesmo que, dentro do mastodonte cinematográfico de Lurhmann, pareça tão despropositada quanto água no deserto australiano.

Sedutora mesmo é a visão do cineasta da Austrália enquanto espaço mítico que já pertenceu à África e ao Velho Oeste. AUSTRÁLIA vem se juntar a ENTRE DOIS AMORES e DANÇA COM LOBOS, duas obras do cinema moderno que procuravam recuperar o romantismo que exalava destes territórios selvagens e inexplorados nos filmes de outrora e que se perdeu no revisionismo. Em meio aos excessos, ao kitsch e ao anacronismo, Baz Luhrmann sela sua história de amor com uma Hollywood que o vento levou.     

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