Se alguém ainda acha que humor inteligente e TV não combinam, tem obrigação de conhecer WEEDS, a série do Canal Showtime exibida aqui pela GNT e que cuja segunda temporada aporta também em DVD pela Sony. A série aborda o cotidiano de Nancy Botwin (Mary-Louise Parker, de TOMATES VERDES FRITOS), uma jovem viúva que decide comercializar maconha de forma a sustentar seus dois filhos, o adolescente Silas (Hunter Parrish) e o brilhante caçula Shane (Alexander Gould). Pelo menos essa é a desculpa que ela dá pra si mesma. Afinal, uma moça bonita, inteligente e saudável poderia muito bem arrumar um emprego menos, digamos, criminoso, não é?
Mas é exatamente com a intenção de atacar a hipocrisia da sociedade, inclusive da própria protagonista, que a produtora e roteirista Jenji Kohan desenvolveu o conceito de WEEDS. Com passagem por séries como MAD ABOUT YOU, GILMORE GIRLS, SEX AND THE CITY e WILL & GRACE, Kohan, a filha de um veterano roteirista da TV norte-americana, situa sua trama numa pequena cidade californiana, palco de tantos dramas e comédias que costumam ironizar o modo de vida americano.
Desde A CALDEIRA DO DIABO (1957) revelou os podres por trás da aparente tranqüilidade e perfeição dos moradores de Peyton Place, o cinema e a TV encontraram nos subúrbios e nas cidades pequenas o microcosmo perfeito para encenar tramas sórdidas que se escondem sob uma superfície rósea, mas frágil. O próprio A CALDEIRA DO DIABO deu origem a uma seqüência e a uma série de TV, abrindo caminho para outras famosas produções como VELUDO AZUL e TWIN PEAKS, ambas de David Lynch, e a recente DESPERATE HOUSEWIVES. Uma grande metrópole como a Nova York de SEX AND THE CITY é perfeita para revelar mais sobre as neuroses dos protagonistas que sobre uma sociedade em particular, graças ao aspecto mais cosmopolita inerente a elas. Mas um espaço pequeno funciona melhor para revelar as entranhas e as nem sempre inocentes ligações que unem seus habitantes.
É nisso que WEEDS se dá particularmente bem. A série não fica apenas presa no conceito central, apesar deste amarrar com inegável eficiência as diversas tramas. Mas ao tocar em um assunto tão singular, o do tráfico de drogas inserido numa classe média de Primeiro Mundo, WEEDS mostra que perfeição é relativa, e boas condições de vida não evitam o lado mais sombrio do ser humano.
E a série trata disso com extremo bom humor, ainda que por vezes negro. Nesta SEGUNDA TEMPORADA, Nancy tem de contornar a descoberta algo melodramática de que seu novo namorado (Martin Donovan, ator favorito do cineasta independente Hal Hartley) é um agente de entorpecentes. Enquanto isso, seus filhos aprendem a lidar com a sexualidade, seu cunhado boa vida (o ótimo Justin Kirk) engata um romance com uma judia sadomasoquista e sua melhor amiga Celia Hodes (Elizabeth Perkins) disputa a liderança política do local com o eternamente dopado Doug Wilson (Kevin Nealon).
Uma grande sacada desta nova temporada é convidar a cada episódio um intérprete diferente para o divertido tema musical da série, algo que dá um novo frescor para a mesma. Os roteiros continuam tão sarcásticos quanto na premiada primeira temporada, e o elenco está cada vez mais à vontade. Deste se destaca a excelente Mary-Louise Parker. Com sua expressão de que acabou de cometer uma arte e sua sensualidade natural, Parker consegue sair ilesa do julgamento do público mesmo após cometer os atos mais sórdidos. Ela convence porque não tenta ser mais do que é. É humana, cheia de falhas, mas sabe encará-las com bom humor. Que pode não redimir tudo, como faz crer WEEDS, mas que torna a hipocrisia bem mais fácil de encarar.
A edição em DVD é dupla e reúne os 12 episódios da temporada com ótima qualidade técnica. Já os extras presentes na edição americana ficaram de fora.