Foi um balde de água fria nos críticos da época. Um dos grandes nomes do neo-realismo, do cinema conscientizado, da vanguarda européia, o cineasta que recusara aceitar um astro como Cary Grant como estrela de LADRÕES DE BICICLETA para manter a integridade da obra, traíra o movimento (no caso, os críticos) e se vendera ao cinemão. Vittorio De Sica, o traidor em questão, passara a figurar como ator em superproduções hollywoodianas, como ADEUS ÀS ARMAS, lembrando seus tempos de galã de antes da guerra. E ainda pior, deixara de lado o tom político de seus filmes para virar diretor de aluguel em fitas comerciais estreladas por astros do cinema mundial, como Shirley MacLaine (SETE VEZES MULHER), Peter Sellers (O FINO DA VIGARICE), Faye Dunaway (UM LUGAR PARA OS AMANTES) e Richard Burton (VIAGEM PROIBIDA).
Mas nenhum alvo foi tão visado pelos críticos da época que a série de filmes que De Sica rodou com Sophia Loren e Marcello Mastroianni. Sendo os maiores astros do cinema italiano, era inevitável que fossem reunidos em filmes com ambições populares, ainda mais considerando que o marido de Loren era o mega-produtor Carlo Ponti, responsável tanto por produções grandiosas como ULISSES, GUERRA E PAZ e DOUTOR JIVAGO quanto por obras premiadas como A ESTRADA DA VIDA, O DESPREZO e DEPOIS DAQUELE BEIJO. O que ninguém contava é que logo De Sica fosse o responsável por tornar a dupla um dos casais de maior sucesso em todo mundo, em filmes de grande apelo popular como MATRIMÔNIO À ITALIANA (indicado aos Oscars de atriz para Loren e de filme estrangeiro), ONTEM, HOJE E AMANHÃ (Vencedor do Oscar de filme estrangeiro) e este OS GIRASSÓIS DA RÚSSIA (I GIRASOLI, Itália/Rússia, 1970, Versátil).
Enquanto ONTEM, HOJE E AMANHÃ e MATRIMÔNIO À ITALIANA fixaram na mente do público várias das características normalmente associadas aos italianos – a infidelidade, o caráter passional, os amores entre tapas e beijos – OS GIRASSÓIS DA RÚSSIA assume uma nota mais trágica e romântica. O filme começa após a 2ª Guerra, com a personagem de Loren, Giovanna, interpelando representantes do exército italiano em busca de informações sobre o paradeiro de seu marido Antonio (Mastroianni), que desapareceu no front soviético. Ninguém parece saber dele. A trama então recua para alguns anos antes, mostrando como o casal se conheceu quando ele estava de licença do exército. Se apaixonam, se casam, se trancam em um apartamento onde revezam entre fazer amor e omeletes (uma seqüência memorável mostra praticamente em tempo real Loren e Mastroianni preparando um jantar, enquanto conversam apaixonadamente). Em seguida, Antonio é convocado para enfrentar o exército soviético na Sibéria e aí é dado como desaparecido. Giovanna não se dá por convencida da morte de seu amado e parte para a Rússia atrás dele.
Talvez uma das razões pela frieza com a qual OS GIRASSÓIS DA RÚSSIA tenha sido recebido pela crítica ocidental seja o fato de ter sido rodado em locações na Rússia com o apoio daquele regime. Hoje isso só comprova o poder de fogo do produtor Carlo Ponti, mas na época, em plena guerra fria, serviu como mais um argumento para os detratores da produção. Mas o que realmente irritou os críticos foi ver De Sica, acompanhado do igualmente célebre roteirista Cesare Zavattini, embarcar sem o menor receio em um projeto tão assumidamente comercial e sentimental. Isso não impediu, porém, que o público se apaixonasse pela história trágica e fizesse do filme um grande sucesso, até hoje lembrado e reverenciado. A cara produção, com belas locações, centenas de figurantes, fotografia de Giuseppe Rotunno (prejudicada pela cópia em DVD) e música de Henry Mancini (indicada ao Oscar), deu ao filme o verniz necessário para tal aceitação. Não quer dizer que OS GIRASSÓIS DA RÚSSIA seja desprovido por isso de valores artísticos, muito pelo contrário. Vendo o filme com o distanciamento permitido pelos anos, percebe-se claramente suas muitas qualidades, que transcendem até o carisma inegável do casal perfeito do cinema italiano. Basta reparar na bela seqüência ao final, quando os amantes se encontram nas penumbras de um quarto de hotel. É de uma dor palpável. E De Sica tem claro domínio do escopo da produção, nunca perdendo de vista o conflito central.