Dirigido
por Cecilia Amado e Guy Gonçalves. Com: Jean Luis Amorim, Ana Graciela, Robério
Lima, Paulo Abade, Israel Gouvêa, Ana Cecília, Marinho Gonçalves, Jordan
Mateus, Elielson Conceição, Evaldo Maurício, Heder Novaes, Edelvan de Jesus.
Não é fácil, a
tarefa de tentar levar para as telas um livro como Capitães da Areia. Uma das maiores obras de nossa Literatura, o
texto de Jorge Amado é denso em suas caracterizações e comentários políticos e sociais,
sendo povoado por uma infinidade de personagens marcantes que, sem dúvida,
permanecem nas mentes de leitores de várias gerações como figuras bem definidas
que agora devem encontrar eco nos atores que os encarnam nas telas. Mais
difícil ainda, imagino, deve ser assumir a tarefa de adaptar um clássico para o
Cinema quando o autor da obra era seu próprio avô.
Pois Cecilia Amado, estreando aqui
no comando de longas depois de uma considerável experiência como assistente de
direção de filmes como Batismo de Sangue,
Jogo Subterrâneo e Onde
Anda Você, se sai admiravelmente bem na tarefa, criando um filme
que, mesmo com problemas, honra os personagens de Jorge Amado ao mesmo tempo em
que os apresenta em uma produção bem cuidada que prima pela fotografia
memorável, pela direção de arte impecável e por atuações juvenis que
surpreendem na maior parte do tempo. Co-autora do roteiro ao lado do experiente
Hilton Lacerda (A Festa da Menina Morta),
Cecilia traz para o Cinema com delicadeza os Capitães da Areia, grupo de
crianças e adolescentes que, na Salvador da década de 30, vivem num trapiche
abandonado e passam os dias percorrendo as ruas da cidade roubando e aplicando
golpes que garantam sua sobrevivência. Liderados por Pedro Bala (Amorim), eles
contam com um código de honra interno que estabelece um sistema de suporte
mútuo e que acaba sendo abalado com a chegada de Dora (Graciela), uma órfã
encontrada por Professor (Lima).
Substituindo uma trama definida pela
simples observação da dinâmica entre seus vários personagens, Capitães da Areia fascina por trazê-los
em um mundo que combina a religiosidade e o misticismo do candomblé com o
pragmatismo imposto pela dura realidade na qual aquelas crianças vivem. Livres
ao seu próprio modo, os Capitães se orgulham de sua independência ao mesmo
tempo em que valorizam os laços estabelecidos uns com os outros – e, por isso,
são perfeitamente capazes de brigar usando facas em um instante apenas para, no
momento seguinte, sentarem lado e lado enquanto contam casos e riem uns dos
outros. Não que o filme romantize suas existências áridas: dormindo no chão em
um imóvel semidestruído que parece não ser capaz de abrigá-los da mais leve
chuva, os garotos vivem com expressões cerradas que denunciam a amargura com
que enxergam o mundo – e, justamente por isso, vê-los abrindo largos sorrisos
em raros momentos de felicidade é algo que se torna tocante por expor a
promessa frustrada que cada um ali representa ao seu próprio modo.
Neste aspecto, a escalação dos
atores é fundamental – e Cecilia Amado se sai admiravelmente bem em suas
escolhas (infelizmente, não consegui encontrar o nome do(a) diretor(a) de
elenco para citá-lo(a) aqui): como Pedro Bala, o jovem Jean Luis Amorim
consegue combinar a segurança de um líder experimentado com a ingenuidade
emocional de um adolescente, ao passo que Robério Lima transforma o Professor
em uma figura fiel ao amigo mesmo quando magoado ao vê-lo seduzindo sua amada
Dora – e é fácil compreender porque ele é visto como um intelectual pelos
companheiros. Por sua vez, Ana Graciela confere vulnerabilidade a Dora, além de
evocar com talento a sexualidade latente da garota – e mesmo que falhe em
momentos dramáticos (percebam sua falta de reação diante da briga dos Capitães
ao vê-la pela primeira vez), acaba convencendo graças à naturalidade com que
assume seu papel de “mãezinha” dos demais.
Mas o trio principal é apenas a
cobertura do bolo, já que Amado e o preparador de elenco Christian Durvoort
arrancam belas atuações de todo o elenco infantil secundário: como Gato, Paulo
Abade exibe, mesmo tão jovem, a intensidade de um homem obcecado por sua
companheira, ao passo que o pequeno Jordan Mateus é capaz de encarnar Boa Vida
tanto como um garotinho irreverente quanto como um marginalzinho em construção.
Finalmente, Israel Gouvêa ganha a chance (e faz jus a ela) de interpretar o
mais atormentado dos Capitães: ressentido por ser tratado pelo mundo como
alguém menor em função de sua deficiência e abrindo mão da possibilidade de uma
vida de conforto apenas para honrar o acordo com os amigos, Sem Pernas
mostra-se um indivíduo torturado que age com crueldade e raiva não por uma
maldade inata, mas como mecanismo de defesa – tornando-se, no processo, o mais
trágico entre os personagens. Em contrapartida, alguns dos quase figurantes
pecam por interpretações caricatas que denunciam uma falta de cuidado da
direção com os atores menos relevantes para a narrativa – algo que fica claro
na gagueira de Zorra Total de Aurélio
e na bondade histérica do padre José.
Estabelecendo-se como uma personagem
tão importante quanto os próprios Capitães, a cidade de Salvador surge aqui
como um ambiente romântico ao seu próprio modo, mas também palco de terríveis
injustiças – e sua geografia particular, tão facilmente reconhecível, é empregada
com eficiência ao lado da direção de arte do veterano Adrian Cooper para evocar
a época e a atmosfera da história de Jorge Amado. Além disso, é louvável
perceber que a diretora não se rendeu ao politicamente correto que domina as
produções contemporâneas e que poderia levá-la a ignorar (ou minimizar) alguns
componentes característicos daquele universo, como o fato dos jovens Capitães
se entregarem à bebida, ao cigarro e ao sexo – e a transa de Dora e Pedro Bala
é encenada com um equilíbrio preciso entre a doçura e a pura necessidade
física.
Nem tudo, porém, funciona em Capitães da Areia: as cenas envolvendo o
carrossel surgem como símbolos óbvios e, portanto, frágeis daquele universo
infantil corrompido, ao passo que a trilha de Carlinhos Brown, embora eficaz na
atmosfera lúdica de seus temas instrumentais, beira o constrangedor ao investir
em canções que tentam comentar a narrativa e os personagens em determinados instantes.
Da mesma maneira, embora seja bem sucedido ao construir figuras
tridimensionais, o filme falha em seus aspectos emocionais, falhando em provocar
impacto, por exemplo, com a morte de certo personagem.
Ainda assim, é incontestável que o
longa de Cecilia Amado tenha conseguido transportar as criações icônicas de seu
avô com sucesso para as telas – e ver os Capitães em pé, contra o vento, e
emoldurados pelo céu azul da capital baiana é algo capaz de provocar arrepios
até mesmo no mais cético dos espectadores.
E, quem sabe, também de despertar o
interesse de uma nova geração de leitores pela obra magnífica do velho Jorge.
07
de Outubro de 2011
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