Dirigido por Martin
Campbell. Com: Ryan Reynolds, Blake Lively, Peter Sarsgaard, Mark Strong, Tim
Robbins, Jay O. Sanders, Angela Bassett, Temuera Morrison e as vozes de
Geoffrey Rush, Michael Clarke Duncan e Clancy Brown.
Hollywood
vem produzindo tantos filmes protagonizados por super-heróis que seus
personagens e figurantes já nem se espantam mais quando um ser humano surge
voando nos céus da cidade. Isto pode ser comprovado de maneira inegável em Lanterna Verde quando, ao aparecer
usando um collant verde e produzindo
objetos a partir de sua “força de vontade”, o protagonista Hal Jordan mal
consegue inspirar um sacudir de ombros de um “Por que não?” por parte da
população local.
Adaptado a partir dos quadrinhos da
DC Comics, rival da Marvel, o roteiro escrito a oito mãos (péssimo sinal) gira
em torno do já citado Jordan (Reynolds), um piloto da força aérea que,
irresponsável, mulherengo e imaturo, acaba sendo escolhido pelo anel de força
do alienígena Abin Sur (Morrison; leia-se: Jango Fett) para ser o novo
integrante da tropa de elite intergaláctica liderada por Sinestro (Strong).
Confrontados pelo terrível Parallax (Brown), cuja força vem do “Medo”, os
Lanternas tentam encontrar uma maneira de derrotá-lo enquanto Jordan busca
vencer seus próprios traumas e dúvidas sobre sua capacidade de ser um autêntico
herói.
Quanto a esta última parte da
descrição, ao menos é o que os roteiristas tentaram
fazer, já que, na prática, os autoquestionamentos feitos por Jordan são tão
falsos quanto os efeitos visuais usados para ilustrar o planeta Oa e os sábios
líderes do lugar (que, aparentemente, vivem empoleirados em torres, o que deve
ser bem desconfortável). Assim, em vez de nos identificarmos com as
inseguranças do protagonista, somos obrigados a vê-lo quase morrendo num
acidente de avião em função de um... flashback.
Aliás, a falta de cuidado do roteiro ao construir a história pessoal do
personagem é tão grande que, em certo momento, vemos o rapaz numa difícil
reunião de família apenas para que seus parentes jamais voltem a ser
mencionados no filme – e prefiro nem comentar a nulidade da cientista vivida
por Angela Bassett, que é (quase literalmente) arremessada para fora do filme
sem maiores preocupações. Porém, considerando que Tim Robbins aqui vive o pai
de Peter Sarsgaard, apenas 13 anos mais jovem (e sem o auxílio de maquiagem),
podemos perceber que verossimilhança não foi uma prioridade do projeto.
Porém, se é difícil aceitar Robbins
como pai de Sarsgaard, isto empalidece diante da impossibilidade de
acreditarmos na relação entre Jordan e Carol Ferris, vivida com absoluta
inexpressividade por Blake Lively. De um lado, o rapaz sofre uma condição
chamada de “medo de relacionamentos sérios”; do outro, a garota padece de um
mal batizado de “personagem mal escrita”, já que seu comportamento oscila de
forma esquizofrênica ao longo da projeção: aqui, é hostil a Jordan; ali, dócil;
acolá, se distancia; mais tarde, o apoia incondicionalmente – e o único
elemento que se mantém constante em sua performance é a falta de carisma. Para
encerrar, eu já mencionei que neste filme Ryan Reynolds vive um personagem que
quase morre de um caso agudo de flashback?
Dito isso, é preciso apontar que, à
sua própria maneira, Jordan funciona como herói. Reynolds pode não ser o mais
talentoso dos atores, mas é certamente carismático – e o cineasta Martin
Campbell é hábil ao retratar a impulsividade e o sangue frio do sujeito ao mostrá-lo
saltando para salvar uma criatura desconhecida mesmo ainda em choque por acabar
de ter sido transportado por uma misteriosa bolha verde de energia. Ainda
assim, o grande destaque de Lanterna
Verde fica mesmo por conta do Hector Hammond vivido por Peter Sarsgaard,
que, claramente se divertindo com a maquiagem e com a composição do sujeito,
encontra maneiras divertidas e inesperadas de dizer até mesmo a mais clichê das
falas – como, por exemplo, ao sugerir às suas vítimas que “corram” com um ar de
satisfação que expõe seu desejo juvenil de persegui-las. Desta maneira, é
lamentável que o personagem seja tão pouco (e mal) utilizado pelo roteiro.
Tecnicamente irregular, já que
oscila entre efeitos visuais cartunescos (os alienígenas) e outros mais
eficientes (os elementos criados pelo anel de Jordan), Lanterna Verde ainda pode ser visto em uma versão 3D (convertida!)
irregular: nas sequências envolvendo planos gerais (como a própria galáxia), é
eficiente; em outros, apenas distrai e envolve a fotografia num véu cinza
desagradável. E se o roteiro erra na maior parte do tempo (como o Lanterna,
Jordan passa ter conhecimentos sobre todo o universo, mas ainda faz perguntas
óbvias ao seu instrutor), aqui e ali se sai relativamente melhor – como ao
enfocar as criações do herói e do vilão paralelamente ou ao brincar com o
clichê absurdo da máscara que protege a identidade de Hal.
Diretor que costuma se sair muito
bem em filmes de ação (A Máscara do Zorro, Cassino
Royale), Campbell ainda acerta aqui em momentos de mais sutileza,
como ao trazer Hector solitário em meio à multidão, ressaltando o isolamento do
personagem, ou ao enfocar rapidamente Jordan brincando com uma pista que
eventualmente retornará de forma curiosa.
Assim, Lanterna Verde acaba se revelando um passatempo relativamente
divertido e agradável. Mas que custa a se recuperar da ideia terrível de
sugerir “flashback” como causa mortis aceitável.
Observação: há uma cena adicional durante os créditos finais.
19
de Agosto de 2011
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