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Cinema em Cena - Colunas
16 - 16/12/2001: Descaso para com o Espectador
04/03/2004

Amigos do Cinema em Cena;

(Atenção: não deixem de ler o `P.S.`, com a explicação enviada pela Warner, que foi acrescentado ao texto abaixo)

inicialmente, este artigo deveria ser publicado na forma de um Editorial, assim como fiz na época dos problemas enfrentados por Dogma no Brasil. Porém, acabei optando por transformar o editorial em uma Conversa de Cinéfilo por um simples motivo: o fórum existente nesta seção. E, neste momento, nada poderia despertar mais o meu interesse do que a sua opinião sobre este assunto.  

Pois é lamentável que a Warner brasileira tenha insistido na péssima idéia de lançar O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel em 1º de Janeiro de 2002. Além de evidenciar uma falta de visão impressionante por parte da distribuidora, esta atitude é uma clara demonstração de falta de respeito para com os fãs da obra de Tolkien, que já esperam há meses pela oportunidade de conferir a adaptação de Peter Jackson. E o que é pior: o filme terá estréia mundial em 21 de Dezembro – exceto no Brasil, o que aumenta ainda mais a revolta dos cinéfilos.

Para completar, a Warner ainda aumenta o insulto ao resolver lançar A Sociedade do Anel no primeiro dia do ano, ignorando completamente o fato de que milhões de pessoas ansiosas para conferir o filme em sua primeira sessão estarão esgotadas em função dos festejos do réveillon. Para os engravatados da distribuidora, isso é um detalhe; para os cinéfilos, um imenso inconveniente.

A Warner Brasil age desta maneira por ter a mais absoluta certeza de que o público invadirá as salas de projeção de qualquer maneira – eles poderiam lançar o filme na noite de Natal e ainda assim teriam um sucesso nas mãos. E é este `poder` que confere aos executivos da empresa a possibilidade de manipular o espectador da pior forma possível.

Como se não bastasse, a distribuidora não se dignou sequer a dar uma explicação para sua atitude. Atendendo aos pedidos de nossos leitores, organizamos um abaixo-assinado que foi encaminhado à Warner com o objetivo de provar (se é que isso era necessário) o imenso interesse do público brasileiro pelo filme – o recebimento da lista foi confirmado através de um telefonema. Aliás, a funcionária que nos atendeu garantiu que teríamos uma resposta em poucos dias. Uma semana se passou e nada. Voltamos a ligar para a distribuidora, explicando que nossos leitores pediam ao menos uma explicação para o adiamento da estréia de O Senhor dos Anéis. Novamente, recebemos a promessa de uma resposta no dia seguinte. Novamente, esta não veio.

O descaso da Warner Brasil para com o público é fato antigo. Em 1999, a uma semana da estréia de De Olhos Bem Fechados no país, a distribuidora não sabia sequer qual versão do filme seria lançada por aqui, a original ou a `censurada`. A maioria dos emails enviados à distribuidora são solenemente ignorados e, da mesma forma, telefonemas não são retornados.

A Warner parece querer apenas uma coisa do cinéfilo brasileiro: seu dinheiro. Em troca, a distribuidora oferece seu desprezo e seu desrespeito, sabendo que as superproduções lançadas pela matriz americana serão o suficiente para manter a `fidelidade` do espectador. E isso, repito, é lamentável. As representantes brasileiras da Fox, Buena Vista e Columbia (para citar apenas as principais) podem até enfrentar problemas em seus cronogramas de lançamento (um problema crônico no Brasil), mas, ao menos, são extremamente solícitas em sanar as dúvidas dos espectadores e da imprensa.

O que os executivos da Warner Brasil precisam entender é que eles estão vendendo um produto – e que os espectadores são seus clientes. E uma regra de ouro do comércio diz que `o cliente tem sempre razão`. Para a distribuidora, porém, a regra parece ser outra: `Cliente bom é aquele que paga sem reclamar ou exigir seus direitos`.

Infelizmente, só nos resta protestar. Boicotar os lançamentos da Warner, como um usuário do Cinema em Cena sugeriu em um de nossos fóruns, não é a solução. Particularmente, eu jamais deixaria de assistir a um filme que me interessasse apenas por `vingança`: eu seria (novamente) o único prejudicado.

O objetivo deste artigo não é ameaçar ou ofender a Warner Brasil, mas sim o de alertar a distribuidora com relação às  suas recentes atitudes. Hostilizar o cliente não é uma maneira sábia de fazer negócios. A direção da empresa deveria seguir o exemplo da Fox, Columbia, Buena Vista e Lumière e perceber que o cliente satisfeito pode até indicar seu produto favorito para um amigo; porém, o espectador irritado certamente falará mal daquilo que não gostou para dez de seus conhecidos. É só fazer as contas.

Para finalizar, uma observação: como não pude viajar para São Paulo a fim de conferir a pré-estréia especial de A Sociedade do Anel, já que estava preparando o especial de Natal do programa Cinema em Cena, serei obrigado a esperar até 2002 para conferir o trabalho de Peter Jackson. Não me envergonho de admitir que estarei (mesmo que profundamente fatigado) na primeira sessão de A Sociedade do Anel. Não será o desrespeito de alguns engravatados que me impedirá de prestigiar o esforço de um artista. Mas a frustração dificilmente me abandonará.

Graças a estes `executivos`, o Brasil ficou para trás mais uma vez. Nem Sauron tomaria uma decisão tão infeliz.

Um grande abraço e (se a Warner permitir) bons filmes.

P.S.: Recebemos hoje (dia 19 de Dezembro, quarta-feira) uma ligação da Sandra A., assessora de imprensa da Warner Brasil. Muito educada e gentil, Sandra explicou que havia nos enviado um email anteriormente, mas que este se extraviou. Confira, abaixo, a explicação oficial da Warner para o adiamento da estréia de A Sociedade do Anel:

`A Warner Bros. informa que o filme O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel será lançado em 1º de janeiro por razões de cunho técnico e mercadológico.

Por se tratar de um filme de imagens impactantes e efeitos especiais inéditos, houve cuidado para que o sigilo destas fosse mantido e a magia preservada para o espectador. Assim, o filme só poderia estar no Brasil e em outros países pouco antes do lançamento nos Estados Unidos (19/12).

Além disso, o roteiro passou por um processo bastante cuidadoso de tradução e revisão para retratar o mais fielmente possível a obra que deu origem à trilogia. Também a Warner Bros. estima lançar o filme com um número significativo de cópias (entre 300 e 400), um volume que demanda maior tempo em laboratório.

Assim, a data de 1º de janeiro foi determinada não só para o Brasil, mas também para outros países da América Latina (Argentina, Chile, Panamá, Peru e Uruguai).

A Warner Bros. visa fazer do lançamento de O Senhor dos Anéis no Brasil um dos maiores na história.`

Bom, aí está a explicação oficial. Agradecemos o esforço da Sandra (e, obviamente, da Warner) para esclarecer as circunstâncias que levaram ao adiamento da estréia de O Senhor dos Anéis.

No entanto, sinto-me na obrigação de fazer as seguintes considerações:

1) É louvável que a distribuidora tenha se certificado de que a tradução e legendagem de O Senhor dos Anéis seria a melhor possível (e realmente deve ter sido um trabalho difícil, já que vários personagens e locais descritos nos livros receberam traduções diferentes nas diversas edições da trilogia). Porém, como houve uma pré-estréia no último dia 15 de Dezembro, devo supor que a distribuidora teve tempo bastante para realizar este trabalho, o que novamente deixa sem explicação a demora em lançá-lo por aqui (mesmo considerando-se o número de cópias).

2) A questão do `sigilo`: particularmente, acredito que esta preocupação tornou-se infundada a partir do momento em que aconteceu uma pré-estréia em São Paulo.

3) O `cunho mercadológico`: novamente, a distribuidora absteve-se de mencionar a relação deste adiamento com o lançamento do ridículo Xuxa e os Duendes (sim, tive o desprazer de assisti-lo). O fato é que a Warner está ocupando, atualmente, mais de 50% das salas de cinema existentes no Brasil - e, assim, a estréia de A Sociedade do Anel acarretaria, necessariamente, em uma diminuição no número de salas disponíveis para a produção da `Rainha dos Baixinhos`. Ou seja: há, sim, uma relação entre as datas de lançamento das duas produções, por mais que a Warner se negue a assumir este fato.

Porém, é um direito da distribuidora realizar estas manobras de mercado - afinal, a empresa tem que lucrar. O que é incorreto é esconder informações do público (e, o que é pior, favorecer um filminho de quinta categoria como o da Xuxa e prejudicar a legião de fãs de Tolkien).

Seja como for, a atitude da Warner Brasil em procurar o Cinema em Cena e esclarecer (mesmo que apenas em parte) sua decisão de adiar A Sociedade do Anel já evidencia a intenção da distribuidora de tratar melhor seu público. Parabéns à Sandra e à Assessoria de Imprensa da Warner, que deram um grande passo no sentido de provar para o espectador brasileiro que a empresa não está interessada apenas em seu dinheiro, mas também em seu respeito.

Pelo jeito, a Warner está deixando seu lado `Gandalf` aflorar.
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